Dennis D.




 Abaixo, eu interpreto Sunny (meu arranjo para saxofone), composição de Bobby Hepp.

CLIQUE PARA OUVIR

 



 Escrito por Dennis D. : 09h10

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E vamos em frente, entre vogais, consoantes, sustenidos e bemóis...

DÁ CORAGEM DE CORTAR? HAHA!



 Escrito por Dennis D. : 13h45

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Rosengarten, a principessa di Parma e Gmondus, o feto falante / conto de Dennis D.

O Dr. Rosengarten carregava consigo o dom inato do unparteiisch betrachten, o olhar que desvela os segredos, as burlas e fantasmagorias que mascaram o verdadeiro caráter dos homens e das mulheres. Digamos assim: o unparteiisch betrachten do Dr. Rosengarten funcionava como um par de lentes poderosas, irremovíveis, através das quais sempre lhe fora dado enxergar o avesso da humanidade - esse gigantesco teatro de imprevisíveis belezas e horrores, onde transcorrem os espetáculos concebidos pela parceria de Deus com o Demônio. Assim, aos seis anos de idade, Rosengarten já descobrira que sua mamãe querida, além de o achar um menino feio, dedicava-lhe aquele tipo de repulsa muito bem disfarçada, a qual podia ferir ainda mais fundo do que qualquer desprezo posto às claras. O tempo que se seguiu foi pródigo em revelações, centenas de milhares delas, desconfortáveis em sua maioria.
Saltemos para uma cena noturna, não muito distante do agora, na qual o Dr. Rosengarten, aos quarenta anos, estava sentado à mesa de jantar da sexagenária Maria Cesarina, principessa di Parma. Além desta,  também ali estavam o Dr. Caligari e, dentro de uma cilíndrica urna de vidro, o seu prodigioso médium Gmondus, o feto falante.
Perguntou a principessa di Parma a Gmondus:
"Por que os homens se contentam em saber que são amados, mas às mulheres tal saber não as contenta de modo algum, e precisam elas alardear aos quatro ventos o quanto são queridas pelos pais, pelos amigos, pelos amantes, e até pelos seus cães de estimação, sendo tal exibicionismo vulgar o que as satisfaz de fato, ainda mais do que quaisquer prazeres da mesa ou da cama?"
Gmondus, o feto falante, respondeu:
"Não sei, principessa. Não tenho a resposta."
A principessa dirigiu-se então ao silencioso Dr. Rosengarten:
"O senhor teria uma resposta, doutor?"
Ele coçou o queixo.
"Sim, eu tenho uma resposta, Alteza, que é a única resposta correta, mas não a devo colocar aqui, porquanto ela traz consigo uma revelação inconveniente."
"Não me intimido diante de revelações inconvenientes, doutor", insistiu a velha senhora. "Quero a resposta correta. Não instigue ainda mais a minha curiosidade."
O Dr. Rosengarten não cedeu ao apelo. O seu dom do unparteiisch betrachten lhe revelara que o feto falante não passava de um embuste criado pelo Dr. Caligari. Gmondus era um engenho mecânico revestido com estômago de carneiro, já em princípio de decomposição. A voz em falsete o próprio Dr. Caligari a projetava por meio de ventriloquismo. Mais um olhar e a principessa surgiu em sua verdadeira forma: Maria Paraguassu, enfermeira-chefe. O Dr. Caligari também se desintegrou e em seu lugar apareceu o rosado Dr. Oberon, oftalmologista e marido de Titânia, a fisioterapeuta que tinha mãozinhas de fada.
O dom do unparteiisch betrachten sempre atua implacavelmente.
O Dr. Rosengarten, mão trêmula, puxou um espelho do bolso. Precisava ver o reflexo do próprio rosto - descobrir se ali estava mesmo a pessoa que ele acreditava ser.
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 Escrito por Dennis D. : 13h56

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O Trenzinho do Caipira / Dennis D.

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 Escrito por Dennis D. : 22h28

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A Clarinet in The Night / Dennis D.

Aqui eu interpreto um de meus arranjos para clarineta. É um estudo, mas resolvi colocar na página.



 Escrito por Dennis D. : 11h29

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Tamba-Tajá / Meu arranjo para a antiga e conhecida canção de Waldemar Henrique. / Dennis D.

(Espero que nenhum dos meus leitores-ouvintes tenha recebido espírito de algum índio ou índia macuxi, haha!)



 Escrito por Dennis D. : 00h04

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Tenderly / um conto de Dennis D.

Ele abriu os olhos e pressentiu que iria morrer em questão de minutos. Eram três e meia de uma madrugada de abril. Tudo estava muito silencioso, na casa e fora dela. Não havia tempo, nem motivo, para procurar os chinelos. Ele se levantou e, com dificuldade, caminhou até o banheiro. Despiu-se, entrou no box e abriu o chuveiro. Queria estar limpo, para que não tivessem o trabalho de lavar o seu corpo inerte; queria estar cheiroso e vestido de modo apropriado.
A água batia na sua cabeça e ombros, mas ele nada sentia, nada ouvia. Apenas podia perceber o delicioso perfume de verbena que vinha da espuma do sabonete. Não sentia frio, nem calor, nem poderia dizer se toda a espuma já escoara para o ralo. Apanhou a toalha e enxugou-se como pôde, já que o sentido do tato era mínimo, quase inexistente. Os cinco minutos seguintes foram dedicados à vestir uma cueca limpa, calçar meias pretas novas, meter-se numa camisa branca e na calça cinzenta com cinto de crocodilo. Cada movimento lhe era penoso, uma luta, uma conquista, uma vitória. Deitou-se, então, e fechou os olhos. Em seu coração, surgiu uma tristeza doce, que era também um certo alívio ou uma pequena esperança de felicidade, ele não conseguia definir melhor. Colocou a mão direita sobre o peito e esperou, e esperou e esperou.
A Morte chegou às dez para as cinco, esbaforida, descabelada, os tules negros eriçados em camadas sobrepostas. Não trouxe consigo a foice de cabo longo, trouxe apenas uma sacola feita de rendas cinzentas, dentro da qual havia dúzias de biscoitos de jasmim embrulhados individualmente em papel crepom de variadas cores.
“Experimente um destes”, disse a morte, num gentil oferecimento. Ele aceitou, mas foi para não parecer grosseiro. Sabia, entretanto, que não conseguiria comer nada, nem o menor pedacinho daquele biscoito, afinal estava para morrer. Já devia estar morto, aliás, não fosse o atraso da Morte.
Esta parecia não ter pressa alguma, sorria, ajeitava seus tules, prendia os cabelos num coque, falava amenidades, coisas sobre o tempo, sobre a tirania das horas marcadas, sobre o perfume de verbenas (“muito gostoso”, ela disse) que sentira ao adentrar o quarto.
A ansiedade o fez perguntar: “Quando será? Quando acontecerá?” A Morte sorriu, tocou-lhe o rosto com dedos surpreendentemente mornos, e respondeu: “Já aconteceu, meu querido. Não se preocupe mais.” Ele suspirou e disse em tom de infinito alívio: “Que bom! Eu nem cheguei a perceber.”



 Escrito por Dennis D. : 13h03

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Aqui, eu interpreto um arranjo (para sax) que fiz há poucos dias:

 



 Escrito por Dennis D. : 23h54

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"Melancholy" Piano & Oboe / Dennis D./ Original Composition



 Escrito por Dennis D. : 21h12

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 Minha composição "Jazz Duet Nº 27 para clarineta e trombone":



 Escrito por Dennis D. : 23h15

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(Uma canção de Rodgers & Hart composta em 1937)



 Escrito por Dennis D. : 12h51

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 Escrito por Dennis D. : 12h37

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( Esta composição, uma peça curta, é parte de uma Suíte de Natal que pretendo terminar um dia... )



 Escrito por Dennis D. : 01h08

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Os olhos do Sr. Nacaroth / Dennis D.

Relâmpago é uma palavra elétrica, solitária, sem um sinônimo sequer. Re-lâm-pa-go: a primeira sílaba libera a corrente de energia que acende a segunda sílaba; a segunda sílaba explode, brilha no céu da boca, expande sua luz misteriosa, nem quente, nem fria, entre o branco e o azul mais fugaz... e vem a terceira sílaba, que corta, paralisa, desliga, interrompe... porque na derradeira sílaba, inevitavelmente, tudo se afundará na escuridão. "Go"... para o fundo... cada vez mais para o fundo... mais para longe... mais para baixo... "go"... "go"... o magnetismo dos abismos é poderoso, é força cega que nos atrai, que faz brotar, na maioria de nós, o inexplicável desejo de despencar no vazio, agora mesmo, com braços e pernas bem abertos (estrela-humana-viva-cadente). Desejo e medo mancomunados. Zaz! Quem não viu esse relâmpago, não o verá jamais! Pronto! Apagou-se o clarão, desapareceu a cianose da luz mais misteriosa que existe neste mundo. Toda a luz que restou é menos bela, parece excessiva e imbecil, só ilumina o que é desinteressante.
O Sr. Nacaroth, velho poeta, fechou os olhos... e pensou:
"O que se pode ver com os olhos abertos é apenas o Teatro da Vida Humana. O falso sempre resplandece, ataviado com fantasias tão belas que causam espanto, despertam inveja. No Teatro da Vida Humana, a gente se ilude... por dois minutos, por vinte anos ou durante uma existência inteira: um amor encontrado; um filho perdido; os bolsos cheios, depois esvaziados; a maçã assada a exalar o seu perfume; a inesperada traição daquele amigo; a dor de um osso trincado; o bálsamo na ferida; os mortos enterrados sob chuva fina; os vivos em desespero, aflitos, carentes; todos os sonhos sonhados; todas as mágoas; todos os risos; a indiferença tentando se equilibrar na ponta de uma agulha; as noites insones; o sono mais profundo; o sangue a escorrer do nariz; o orvalho nas uvas da videira; a velhice; o cão que uiva na esquina distante; as areias quentes; o banho no remanso das águas; o balançar gracioso das fúcsias; a aranha que devora a mosca; o mel das colméias... tudo são fantasmas projetados por uma lanterna mágica do século dezenove. Tudo é simplesmente cenografia e farsa, eu sei; tudo é parte do divino drama e da profana comédia. Zaz! Quem não viu esse relâmpago não o verá jamais! Pronto! Apagou-se o clarão!"
Ao abrir os olhos, o Sr. Nacaroth reencontrou o pequeno quarto. Ao canto, a pia muito branca, muito limpa, cuja torneira fatigada vivia a prantear, de minuto em minuto. A cama estreita, forrada com o cobertor sem franjas, parecia inclinada, fora de prumo. A mesa, colocada logo abaixo da janela, servia para comer e também para escrever poemas. Da janela se avistava um muro alto e, acima desse muro, um céu cinzento, desses que prenunciam tempestade.
Se o Sr. Nacaroth não fosse tão velho, se não fosse tão resignado ou tão realista, por certo choraria. Confortava-o, contudo, a certeza de que o mundo verdadeiro não podia ser visto com olhos abertos.
O Sr. Nacaroth fechou os olhos. Ele ficou de pé, imóvel, a esperar pelo relâmpago que, mais uma vez, lhe mostraria a verdade.
Veio o clarão. O Sr. Nacaroth sentiu-se novamente reconfortado pela visão que tivera de si mesmo: um pequeno inseto aprisionado no âmbar, isolado de toda a dor, coroado no ventre do silêncio e da eternidade. Um inseto aprisionado no âmbar, sem fome e sem sede, sem desejo algum. Um inseto que parecia morto, mas sonhava. Em seu sonho perfeito, o inseto vivera cada detalhe de uma existência humana. Sonhava agora que, poeta, se fizera velho e solitário... e, ainda, que só lhe restava esperar pela morte. Tudo sonho, tudo teatro, tudo fingimento.
Zaz! Quem não viu esse relâmpago não o verá jamais! Pronto! Apagou-se o clarão!
O Sr. Nacaroth abriu os olhos.



 Escrito por Dennis D. : 00h05

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Assista ao filme de Marco Dellacosta baseado em um de meus contos. O filme e o Making-of estão disponíveis AQUI



 Escrito por Dennis D. : 14h27

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O tapeceiro estofador / Dennis D.

O homem estava na mesa mais ao fundo, comendo o seu bife com arroz, a cabeça quase metida dentro do prato. Era magro, tinha o rosto envelhecido e os seus cabelos grisalhos pareciam engordurados. Teria cinquenta anos? Sessenta? Um pouco menos? É sempre difícil adivinhar a idade de um homem maltratado pela vida. Num instante, ele ergueu o rosto para consultar o relógio de parede e seus olhos revelaram inesperados azuis líquidos, que pareciam capturar e retransmitir todos os reflexos que dançavam nas garrafas e nos metais inoxidáveis do bar-restaurante.
Chamava-se Eliseu Mesnil esse homem magro que comia sozinho na mesa mais ao fundo. Era um tapeceiro estofador sem contrato fixo. Trabalhava dois dias aqui, três dias ali, nas diversas lojas de móveis do bairro de Villa Lugano. Tivera, um dia, um negócio próprio lá pela divisa de Almagro e Caballito, uma loja especializada em sofás e poltronas de couro legítimo. As crises econômicas de 2001 e 2002, entretanto, o amaldiçoado Corralito, quando não se podia mais sacar o próprio dinheiro depositado nos bancos, tudo isso levou a loja de Mesnil ao desaparecimento.
A mulher de Eliseu Mesnil, Natália vivia na distante e gelada cidadezinha de El Chaltén, na província de Santa Cruz. Cinco anos atrás, ambos decidiram que o divórcio consensual seria a solução para um incômodo que se cronificara, porque o casamento, tal como estava, só lhes servia para trocar desgostos e rancores. Não mais conversavam sequer como amigos e, quando seus corpos se roçavam levemente, fosse na pequena cozinha ou no banheiro, cada qual se esquivava para um lado diferente, enojados do fugaz contato, cada qual a se recriminar pela desatenção. Natália, que nunca pudera ter filhos, deixou para Eliseu uma boneca de pano, lembrança de certo passeio feliz, num dia já misturado a outros dias tolos, sem marcas que os tornassem dignos de ser revividos. A boneca ainda existia, encardida, empoeirada, sórdida, assentada no alto de um armário de roupas.
Eliseu pagou a conta e saiu do bar-restaurante. O dia estava sombreado como se já fossem cinco da tarde. Na Calle Montes Carballo, deteve-se num quiosque a fim de comprar cigarros e viu a menina de tranças negras. Comprou também um punhado de balas.
Ao lado do quiosque havia um banco de madeira ocupado por uma mulher miúda, que lhe dirigiu um esboço de sorriso. Eliseu sentou-se ao lado dela e ficou a observar a menina que brincava de pular as linhas do calçamento.
”É sua filha?”, perguntou à mulher miúda. “Sim, sim, ela se chama Martina”. “Bela criança”, comentou ele. “Muito alegre. Vê-se logo que é feliz e amada pelos pais”. A mulher miúda sorriu, ao dizer: “Sou viúva, mas procuro oferecer amor em dobro à minha filhinha”. Eliseu também sorriu, deliciado, antevendo inconfessáveis indecências e sevícias... e as duas mortes, que seriam inevitáveis, é claro.



 Escrito por Dennis D. : 16h17

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(Art Music / Erudite Music - Short Piece / Original Composition)

 



 Escrito por Dennis D. : 01h45

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A Mulata Verde / Dennis D.

Quando se olhava no espelho, fosse quando fosse, ela não via feiúra ou beleza, acertos ou desacertos nos trajes, quilos a mais ou a menos; via apenas a mulata que era e a mulata que não queria ser.
Ela não gostava de negros. Faria qualquer coisa, neste mundo, para que não reparassem na sua mulatice. Olhava com inveja para o pai, branco, aloirado, olhos de céus de abril. A mãe, negra, narinas largas, olhos de meia-noite, era vista de través, sempre com rancor infinito.
Clarissa; fora este o nome que a mãe escolhera para a filha. Clarissa, um nome que a filha carregava como quem leva uma cruz, uma coroa de espinhos, ou uma verruga na ponta do nariz. Clarissa, que nascera branquinha como o pai, mas depois fora escurecendo, aos poucos, semana a semana...
Na faculdade, num dos primeiros dias de aula, um professor a ela se referiu como “esta nossa bela mulata dos olhos verdes”. Melhor teria feito se a tivesse chamado de vadia; ela não conseguia disfarçar o desgosto. Abandonou os cadernos sobre a cadeira e deixou a sala, soluçando. Não eram reais aqueles olhos verdes, nunca foram; os seus olhos eram de meia-noite, assim como os da mãe, mas Clarissa os cobria com lentes de contato.
Muitos rapazes a queriam, mas ela só se interessava por um: Mauro, o loiro.
Um dia, estava Clarissa no banheiro da faculdade, sentada no vaso, urinando e pensando em suas infelicidades, quando escutou: “Imagine se o Maurinho vai dar atenção à neguinha! Aquela menina não se enxerga mesmo! Ela usa quilos de maquiagem para clarear a pele, reparou? Que imbecil. Não assume a cor que tem. A quem ela pensa que engana, aquela macaca com cabelos de arame?”
Foi na tarde seguinte, logo na primeira aula, que Clarisse apareceu usando aquele batom esquisito, verde-esmeralda. Muitos riram, mas ela não pareceu se importar. Havia até mesmo uma indefinível serenidade em sua fisionomia, como se um grande peso lhe tivesse sido retirado dos ombros.
Dias depois, além do batom esmeraldino, Clarissa também resolveu usar delineador e sombra para pálpebras em tons de malva. Nos cabelos, uma rinsagem pendendo para o musgo.
Ao final do mês, apareceu na faculdade totalmente vestida de verde, e até a pele do seu rosto, dos braços e das pernas parecia recoberta por uma fina camada de pó verdoengo. As meias soquete eram verdes, os sapatos eram verdes, a bolsa era verde, como eram verdes o esmalte das unhas e cada um dos cinco anéis que enfeitavam seus dedos.
Mais algumas semanas e ela já ria gostosamente, fazia gracejos com os colegas, conversava longamente com os professores, mostrava-se inteligente, espirituosa e - quando lhe criticavam a exótica aparência - esgrimia certeiras ironias e dava de ombros.
Chegaram as férias. Clarissa já não era vista em parte alguma. Desaparecera com seu riso e com todos os seus verdes.
Garantiram que estava sob tratamento médico, metida em uma clínica, tomando medicamentos fortíssimos. Visitas não eram permitidas; a família preferia não comentar o caso.
Ao reaparecer, Clarissa já não trazia consigo qualquer vestígio de verdes. Vestia uma saia preta, uma blusa acinzentada. Unhas sem esmalte, cabelos negros alisados, nenhuma maquiagem. Cheirava a água de colônia floral, bem suave, e não sorria. Calada, olhos baixos, caminhava como quem carrega um saco de batatas nas costas. Ao cruzar o grande saguão da faculdade, evitou olhar para as largas colunas espelhadas. Não suportaria a visão da mulata que era, da mulata que sempre haveria de ser.

(Este conto faz parte do meu livro "O Filho do Hipnotizador e Outras Histórias de Estranhas Pessoas".)

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Aqui, canto Something, de George Harrison



 Escrito por Dennis D. : 09h18

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Viver no Brasil de hoje / Dennis D.

Amigos franceses me perguntaram como eu me sinto vivendo aqui no Brasil. Eu lhes respondi que me sinto vivendo no ‘Lado Carnavalesco do Lado Negro da Força’.  



 Escrito por Dennis D. : 08h23

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"Arlecchino" / Dennis D.

Minha composição Arlecchino



 Escrito por Dennis D. : 00h24

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