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José Reinaldo / conto de Dennis D.
 Lalinha não podia gerar filhos, por isso adotou um tatu. O bicho era um filhote que vivia a fuçar no fundo do quintal, e Lalinha se divertia ao vê-lo emergir entre as folhas caídas das bananeiras, correr graciosamente até a horta, meter a cabecinha na terra fofa para morder as raízes daquelas alfaces de um verde mais escuro. Um dia, Lalinha apanhou o bicho, lavou-o no tanque e aconchegou-o ao peito. Foi o que bastou para o leite lhe escorrer do mamilo esquerdo. E por que não amamentar o tatuzinho? Ela o fez. Diante da cômoda, onde a Virgem Mãe sorria entre lamparinas e rosas brancas de papel, o bicho foi informalmente batizado: José Reinaldo — o nome que ela teria dado aos cinco ou seis filhos que lhe escorregaram do ventre muito antes da hora. O marido de Lalinha, que era sargento do Exército Brasileiro, não se agradou daquela história de ter um tatu a correr pela casa, a comer ao lado da mesa, a dormir num bercinho de balanço. Chamou a mulher de louca, deu um prazo de três dias para que o bicho cascudo sumisse de suas vistas. Lágrimas, gemidos, rogos e pragas, Lalinha conhecia muito bem a teimosia do sargento. Nada o faria mudar de ideia. Ou José Reinaldo seria devolvido ao mato... ou o casamento acabaria naquela mesma semana. Perder o marido ela não queria; perder o filho, muito menos. A luz do dia já se ia apagando, quando Lalinha bateu à porta da casa da mãe. Trazia José Reinaldo ao colo, embrulhado em panos. “Mãezinha, pelo amor de Deus, crie o meu menino ou eu me mato!”
Escrito por Dennis D. : 06h53

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OTHELLO Overture (duração: 05:00) / Dennis D.
Para ouvir, clique na imagem abaixo: 
Escrito por Dennis D. : 23h38

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'Motivo Fútil e Torpe', o filme.
No Canal Brasil: 27/07 (HOJE) à Meia-Noite e 31/07 às Duas da Manhã. Assista ao curta de Marco Dellacosta baseado em meu conto 'Motivo Fútil e Torpe'.
Escrito por Dennis D. : 15h42

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Motivo 32 e Motivo 33 / Dennis D.
Chamamos de 'motivo' um pequeno conjunto de compassos que contenha um registro melódico significativo e inspirador, o qual poderá ser utilizado em alguma futura composição. É muito importante que o compositor guarde seus motivos com cuidado e carinho, mesmo que anotados ou gravados de forma rudimentar. Dependendo da qualidade desses motivos, pode-se até mesmo fazer pequenos arranjos orquestrais e gravá-los. Motivos são sempre preciosos e muitos compositores os escondem, morrendo de medo que sejam roubados. Uma vez feito o registro, entretanto, esse temor já não tem justificativa. Eu mesmo não tinha o hábito de guardar motivos, mas aprendi a fazer isso com os amigos compositores da Alemanha e da França. Antes, ficava tudo na cabeça, o que é uma maluquice. Ultimamente, guardo todas as melodias imaginadas, mesmo gravando só em um piano. Como curiosidade, eu vou mostrar a vocês 2 de meus motivos, os quais foram gravados com certo cuidado de orquestração, ok? Clique na imagem abaixo para escutar Motivo 32 e Motivo 33. 
Escrito por Dennis D. : 00h46

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Ab Aeterno (desde a eternidade) / Dennis D.
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Nesta minha composição, no primeiro plano escutamos o canto e contracanto de um dueto com 1 violino de Cremona e 1 viola de Concerto.
Escrito por Dennis D. : 23h16

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Paixão pela Música / Dennis D.


Meus caros, Estou estudando muito, muito. Dio, praticamente moro dentro de um cello, de uma tuba ou de um piano Steinway, mas ainda é preciso estudar muito mais. É uma coisa sem fim, um projeto para os próximos 10 anos, se eu sobreviver (é claro) e se a minha cabeça não entrar em curto. Ando, ando, ando, quando a estrada faz uma curva eu vejo putilhões de quilômetros a frente. É — a um só tempo — assustador e fascinante. Estou a descobrir que as cordas têm reações 'humanas'. O detaché do violino, a viola com os nervos à flor do arco, o cello resmungão, que precisa ser amansado. São instrumentos, mas é tudo 'gente'. Cada elemente luta por sua expressividade, mas — à parte os momentos de solo — não se pode deixar de cuidar do conjunto.
Escrito por Dennis D. : 20h02

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Pão molhado na vodka (volare)

Também me farei absoluto, erguerei a cabeça e fecharei os olhos, para merecer esse teu pão molhado na vodka. Houve um tempo em que eu fugiria do que me ofereces, cerraria os lábios para não receber tua língua, tudo simplesmente por desconhecer a doce experiência de fingir minha própria morte, como me ensinaste a fazer ontem, no fundo daquela piscina. Foi preciso vencer o medo da escuridão, depois foi preciso confiar em ti, que agarravas meus tornozelos, a fim de que eu não subisse antes do tempo. Mais do que a morte por afogamento, assustava-me a certeza de estar, naquela hora, desadornado de minhas mentiras mais lindas, como a indiferença — que o meu próprio corpo desmentia e desmentia e desmentia. Dividimos a mesma toalha, o mesmo desejo, a mesma pequena morte. Quando senti a tua boca no meu queixo, saí de mim para volare. Abocanhei a primeira estrela que achei e trouxe-a para ti, presa entre os dentes, como faria qualquer cão que tivesse recebido um par de asas.
Escrito por Dennis D. : 10h49

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Considerações Sobre a Morte / Dennis D.
As verdadeiras vítimas da morte não são aqueles que pararam de respirar; as vítimas da morte são gente como eu, gente que sobreviveu, gente que perdeu pedaços de si e precisou fingir que estava inteira e prontinha para lutar todos os rounds seguintes. Fingir para continuar caminhando e para não causar mais dor nas outras vítimas da morte, que por sua vez também continuaram fingindo tantas coisas para não causar mais dor a ninguém. Assim é. Dentro de nós, somos todos coitadinhos, e maldito sejam esses e aqueles que — em nome de um falso saber ou de uma coragem que nunca tiveram — nos fazem crer que, em qualquer circunstância, se sentir um coitadinho é sempre vil e vergonhoso. O cacete que é! Então, por isso mesmo, pela cruel influência de meia dúzia de 'donos da verdade' (que vivem a nos esfregar no nariz as suas falsas carteirinhas), aprendi a ocultar (até de mim mesmo) o fato incontestável de que sou mesmo um coitadinho — bem adestrado e bem embalado, mas um legítimo coitadinho. Fazer o quê? Este mundo já não me engana. E a gente que vive nele se divide em duas categorias: os loucos varridos e os brandos insanos. Os loucos varridos já não saem de seu mundo mental; os brandos insanos — que estão com um pé aqui e outro ali — se fazem de lúcidos e de bem-comportados. Em essência, não existem grandes diferenças entre o Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março. São duas faces de uma mesma loucura; a loucura de viver num mundo de loucos. Talvez um saiba disso, talvez o outro nem desconfie, por isso apresentam sutis diferenças de comportamento. E a respeito da morte, é bom que eu diga, será bem-vinda a qualquer hora. Os que dela fogem desesperadamente, mais a ela se enlaçam. Os que a querem num amanhã muito distante, me fazem lembrar daquela frase engraçada de Santo Agostinho, o filósofo: “Senhor, dai-me a castidade, mas não ainda!” Pior do que morrer é fingir que a morte só existe para os outros. Pior do que morrer talvez seja abaixar a cabeça e sempre dizer Amém. Pior do que morrer é sofrer por não ser compreendido ou por não ser amado. Pior do que morrer é acreditar que a felicidade está ali, mais adiante, e que basta caminhar para alcançá-la.
Escrito por Dennis D. : 09h23

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Já está solucionado o problema com o link abaixo, meus caros. 
Li atentamente todos os comentários, mas as respostas que escrevi não se agregaram a eles. Já me comuniquei com o pessoal da UOL, a fim de descobrir qual está sendo o problema técnico. De qualquer forma, quero crer que logo tudo isso se resolverá. Obrigado pelas boas palavras.
Escrito por Dennis D. : 16h28

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A gata / conto de Dennis D.
 Às dez horas da manhã, desdobrou-se sobre o tapete uma réstia de sol. Era estreita, não tinha sequer cinco dedos de largura. Mesmo assim, a velha gata, já magra e ceguinha, veio se arrastando e deitou-se, toda espremida, naquele caminito de luz. Não fosse o calor daquela réstia, a gata estaria morta antes de o relógio tocar o seu carrilhão do meio-dia. Borradas pela penumbra, as paredes da sala pareciam pertencer a mil casas diferentes ou a casa alguma. Havia quadros a óleo, diversos retratos, naturezas mortas e cenas pastoris, mas nenhuma dessas obras tinha valor; eram simplesmente lembranças de dezenas de outras salas, de dezenas de outras casas, de gente cujo nome há anos deixara de ser pronunciado. De repente, a gata abriu os olhos cegos. Um deles era verde leitoso e o outro azul-acinzentado. Depois, abriu também a boca e pôs-se absolutamente imóvel. No minuto seguinte, a gata deu um salto espasmódico, certeiro, e abocanhou um fantasma.
Escrito por Dennis D. : 15h32

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Sad Strings / Dennis D.
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Escrito por Dennis D. : 01h46

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Autumn Song / Dennis D.

(Aproveito para, mais uma vez, agradecer a minha editora, que me permite hospedar em seu domínio os arquivos mp3. Sem isso, seria muito difícil compartilhar meus trabalhos musicais com os amigos.)
Escrito por Dennis D. : 10h52

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Breve consideração a respeito de um chato / Dennis D.

Escrito por Dennis D. : 12h51

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O marido bonito / conto de Dennis D.
Porque ele era bonito e manhoso, a mulher lhe fazia todas as vontades. Era só ele pensar em algo e a esposinha parecia ler imediatamente o tal desejo impronunciado: “Quer uma salada de frutas feita no capricho, amor?” Ele aceitava. “Quer uma massagem nos pés, meu lindo?” Ele aceitava. No segundo ano do casamento é que as coisas começaram a ficar estranhas. Ele passava horas sem dizer uma só palavra. Fingia que não escutava as perguntas que ela lhe dirigia. Fingia dormir, quando ela se aproximava com ares de fêmea carente. Um belo dia, ela notou que, antes de sair para o trabalho, o marido meteu a mão num vasinho de violetas, apanhou alguma coisa e desapareceu apressadíssimo. No dia seguinte, ele fez a mesma coisa, sempre de modo discreto. Ela foi ollhar o vasinho e nada descobriu de anormal. O que será que ele guarda aqui? — perguntou-se. Passou dias a vigiar o vasinho, a observar as folhas da violeta africana... e nada! Mudou de tática. Era o jeito. Fingiu ter um compromisso mais cedo e ficou escondida do lado de fora do apartamento, numa curva da escada. Viu, então, que o marido metia uma bolotinha de terra na boca, assim que deixava o lar doce lar. Ela não tardou a confidenciar a descoberta a uma amiga. “Come terra, é? Isso é doença de pobre, meu bem. Leve seu marido ao médico.” E coragem pra tocar no assunto? Coragem ela não tinha; só medo de desagradar o marido tão bonito que Deus lhe dera como prêmio por ter sido boa moça, por ter casado virgem, por não faltar às missas de domingo. Deixou o caso de lado e foi tocando a vida, sempre procurando não pensar nas bolotinhas que o marido apanhava no vaso de violetas. Quando a terra baixava muito, ela discretamente repunha a parte que se fora e ajeitava a superfície da terra de modo que o marido não percebesse a interferência. Mas o marido continuava estranho, e parecia ter perdido todo desejo sexual. Ela imaginou que talvez fosse por causa da mania de comer terra. Ou — quem sabe — o amor é que já havia principiado a morrer? Será que Deus lhe iria roubar aquele homem tão bonito, tão encantador, um homem que parecia artista de cinema? Certa noite, sentindo toda a angústia de um amor infinito que não encontrava eco, ela colocou um grande pudim na mesa. “Pudim de chocolate, é?” ele perguntou, meio desinteressado. “Não, luz da minha vida. É pudim de terra vegetal com calda de xaxim. Prove pra ver se ficou do seu gosto, amoreco!” Ele meteu uma violenta bofetada na cara dela, fez as malas e foi dormir num hotelzinho do centro. No dia seguinte, ela recebeu a visita do advogado dele, que não levou nem dois minutos e já pronunciou a palavra mais temida: divórcio.
Escrito por Dennis D. : 13h41

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Escrito por Dennis D. : 07h57

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(Com direito até aos chiados da agulha no sulco do disco, haha!)
Escrito por Dennis D. : 20h48

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No primeiro link, o arranjo que fiz para 'Somewhere Over The Rainbow' é praticamente uma brincadeira com os cantos e contracantos do coro dos meninos, encontros e desencontros das vozes em variações melódicas do tema principal. É uma brincadeira séria, melhor dizendo, porque as vozes seguem caminhos diferentes, mas precisam casar harmonicamente nos finais das frases musicais. / No meu segundo arranjo, 'Tristeza do Jeca', volto àquela combinação que muitos diziam proibida por puro proconceito: violões e violino. Acrescentei também uma clarineta, além da percussão. As vozes, ainda em cantos e contracantos, ficam pontuando num segundo plano bem próximo. / No meu terceiro arranjo, 'O Cravo e a Rosa' tentei fazer com que os cantos e contracantos dessem um colorido novo nessa tradicional cantiga popular.
 

Escrito por Dennis D. : 14h53

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A brincadeira / conto de Dennis D.
 “Minha filha, vamos fazer uma brincadeira muito divertida. Suba neste banquinho aqui. Assim, querida, assim mesmo. Fique com o corpo bem reto. Agora, me empreste esse cinto do seu roupão. O papai vai passar o cinto aqui por cima... upa!... agora uma volta assim... outra assim. Pronto. Coloque a cabeça aqui... como se você fosse uma condenada à forca. A brincadeira é divertida, filha. Faça uma cara bem triste, meu bem. Não ria, fique bem séria. Cara triste, o papai disse! Assim. Faça o sinal da cruz, filha. Isso mesmo. Feche os olhos. Quando eu chutar o banquinho você vai cair, mas o papai segura você pelas pernas. Isso. Conte até três e eu chuto o banquinho. Confie no papai... Comece a contar...”
Escrito por Dennis D. : 17h06

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Belinda e Belíndia / conto de Dennis D.
As jovens irmãs Belinda e Belíndia tinham nascido com um tipo qualquer deficiência mental. Deficiência leve, mas perceptível ao segundo ou terceiro olhar. Belinda, catorze anos, quase não falava, mas vivia a rir de um modo estranho, sempre tentando ocultar a boca com suas mãos de dedos extremamente finos e longos. Belíndia, dezesseis anos, não parava de apertar os olhos e batia o queixo como se estivesse nua no Polo Norte. Além disso, tinha uma voz trêmula que lembrava aquelas vozes dos fantasmas nos desenhos animados. Eram feias, as duas, muito magras, muito altas e precocemente acorcundadas. Para coroar tais desgraças e desgraciosidades, Belinda e Belíndia vestiam-se tão mal que eram frequentemente confundidas com mendigas. De mendigas, entretanto, tinham apenas o figurino molambento, porque eram filhas de um dos homens mais ricos do país, o viúvo Dr. Porfírio Generoso de Castro Mello, industrial, pecuarista, comerciante e professor de Direito Constitucional. Certa tarde de abril, Belinda não apareceu à mesa do lanche. As empregadas da casa vasculharam todos os cômodos e não a encontraram. Perto do anoitecer, o jardineiro avistou um emaranhado de tules brancos a cobrir o pequeno tanque das carpas. Era Belinda que ali estava, morta por afogamento e trajando o vestido de noiva da falecida mãe. Num domingo de junho, a cozinheira dos Castro Mello foi à despensa buscar uma peça de prosciutto di Parma e encontrou Belíndia dependurada numa viga, entre salames, queijos e lombos defumados. Enforcara-se com o cinto do roupão de banho. Perto do Natal, o Dr. Porfírio Generoso anunciou aos parentes e amigos que pretendia se casar num prazo de quatro ou cinco meses. Semanas depois, ofereceu um jantar festivo a fim de apresentar a futura esposa, Maribel Lemos, uma jovem, loura e linda advogada. Foi durante esse jantar que uma parenta idosa, Tia Aureliana, fez um breve comentário a respeito das falecidas Belinda e Belíndia. Maribel ficou surpresa, porque Porfírio Generoso jamais lhe contara sobre as duas filhas que tivera, muito menos sobre a forma como elas deixaram este mundo. “Nada lhe disse, meu bem, porque essas lembranças ainda me causam muita perturbação Parece que tudo aconteceu ontem, meu amor.” “Está bem, Porfírio, mas eu gostaria de ver algumas fotografias dessas duas meninas...” “Não há fotografias, meu bem. Queimei as poucas que havia. Minhas filhas tinham problemas mentais e a aparência delas não era nada boa. Belinda, a mais nova, ficava a rir o tempo inteiro. Belíndia piscava sem parar e tremia feito vara verde. Elas usavam roupas largas demais, roupas velhas que haviam pertencido à minha falecida esposa. Minhas duas filhas eram malucas, infelizmente. ” “Que tristeza, Porfírio, essas meninas devem ter tido uma vida cheia de sofrimentos...” “Não sofriam, meu amor, eram loucas. Loucos vivem em uma realidade que está muito além desta que conhecemos. Minhas filhas eram como personagens de um conto de Edgar Allan Poe. Belinda morreu por acidente; caiu dentro do tanque das carpas e bateu com a cabeça no fundo de cimento e pedras. Belíndia matou-se — acredito eu — por medo de viver sem a companhia da irmã. Elas sempre foram inseparáveis.” “Quanta tristeza, Porfírio!” “Pois é, meu amor. Só eu mesmo sei o que passei com essas meninas. Foram duas cruzes que eu carreguei durante todos esses anos.” “Pobrezinho...”, disse Maribel, olhos molhados e a voz enganchada num soluço. O Dr. Porfírio Generoso fechou os olhos e suspirou. Nos braços amorosos de Maribel, saboreava o indizível prazer de sentir-se leve e completamente livre. Dentro do seu coração, não havia o menor vestígio de arrependimento ou culpa por ter eliminado de forma tão terrível cada um de seus dois estorvos. E assim aconchegado, disse num sussurro: “Deus sabe o que faz, meu bem. Ele sempre sabe.”
Escrito por Dennis D. : 15h05

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Escrito por Dennis D. : 20h05

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Escrito por Dennis D. : 00h59

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Elcio no corredor / conto de Dennis D.
Seu Elcio é um senhor vivido. 'Senhor vivido' é a expressão adjetiva que se usava muito antigamente para definir homens experientes com mais de sessenta anos; homens que, à custa de muitos safanões e de muitas decepções, tinham aprendido a fazer sucos, chás e pudins com grama amarga que se é obrigado a comer todos os dias. Na tv, a vertigem das cenas, entrevistas e comentários fiados do jornal das oito correm soltas. De repente, Seu Elcio se levanta da poltrona e começa a caminhar lentamente em direção ao banheiro. Mas faz uma paradinha diante da tela do televisor e, numa voz sem qualquer emoção, dirige-se ao casal de jornalistas-apresentadores: “Nesta vida, meus filhos, eu já estou no corredor de saída. Vão pra puta que os pariu!”
Escrito por Dennis D. : 08h36

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Escrito por Dennis D. : 23h18

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Ni los muertos pueden descansar en paz / conto de Dennis D.
No dia dezoito de março de 1998, quatro cadáveres desapareceram de uma capela funerária do bairro de Chacarita, em Buenos Aires. A capela ficava num casarão mourisco a poucos metros da Avenida Guzmán. Pouca gente se lembra desse insólito desaparecimento de corpos, mas ele chegou a ser divulgado em uma reportagem de quase meia página do Diário El Clarín (“Cuerpos desaparecen de la morgue”). Havia, inclusive, uma foto do pórtico principal do casarão, um grande arco decorado com arabescos, sob o qual se via um sujeito baixinho, gordote, metido num terno preto, e cuja postura empertigada dava a entender que ali estava o proprietário ou, no mínimo, o principal gerente da empresa. Logo abaixo da foto, vinham breves informações a respeito dos quatro defuntos desaparecidos: Professora Doutora Múcia Tértia Herrera y Bandegó, 68 anos, que deu aulas por mais de trinta anos na Universidade de Buenos Aires; Sr. Fei Mu, 71 anos, dono do restaurante Springtime, um dos santuários da alta gastronomia chinesa, localizado na esquina da Av. Santa Fé com a Av. Callao; Sr. Arturo Navarro, 70 anos, velho radialista que mantinha um tradicional programa de tangos na Rádio Mitre, e, por fim, o Professor-tenor Alamino de Castro, 44 anos, que lecionava canto lírico no Instituto Superior de Artes do Teatro Colón. Ao fim da matéria, uma foto menor (e ridiculamente explícita) mostrava a imagem de quatro ataúdes vazios e trazia a seguinte legenda: “Ni los muertos pueden descansar en paz!” Como tudo nesta vida, a reportagem foi comentada por algum tempo, rendeu alguns gracejos de humor negro no rádio e na TV, depois despencou no buraco negro do esquecimento. Novas notícias, novos enigmas passaram a instigar a imaginação dos jornalistas...ninguém mais se perguntou como terminara o caso dos corpos desaparecidos em Chacarita. * 2 * (noite de 18 de março de 1998) Micaela Nuñes apanhou o trem das 23h30 na estação Palermo do ferrocarril — Linea San Martín. Seu destino era a estação Villa Astolfi, onde desembarcaria por volta da primeira hora da madrugada. Notou que só havia um outro passageiro no vagão: uma senhora em torno dos sessenta anos, cabelos pintados negro, rosto lívido e excessivamente maquiado. Não trazia consigo nem bolsa, nem sacola, nem ao menos uma carteira. Entre os dedos da mão esquerda via-se o boleto do ferrocarril, e entre os dedos da mão direita enroscava-se um frágil rosário de contas de cristal. Quando o trem fez sua parada na estação Sáenz Peña, Micaela tentou puxar assunto com aquela silenciosa mulher, mas esta não respondeu e nem ao menos se dignou a abrir os olhos. Parecia profundamente adormecida. Ao que tudo indicava, iria permanecer submersa em sonhos até a parada final na estação Pilar. Tendo chegado ao seu destino, Micaela levantou-se e desembarcou. Ficou parada alguns instantes na plataforma de Villa Astolfi, observando o vagão partir novamente, levando em seu interior a velha dama que só fazia dormir. * 3 * (noite de 18 de março de 1998) No Cine San Martín, Sala Leopoldo Lugones, após o encerramento da última sessão, duas faxineiras começaram o seu trabalho limpeza. A mais velha, Rosa Carmona, notou que um homem continuava ocupando uma das poltronas. Parecia dormir profundamente. Ao se aproximar, viu que se tratava de um velho asiático, chinês, japonês ou coreano, daqueles que usavam bigode e barbicha de ponta fina. Rosa Carmona tinha aversão a asiáticos em geral, desde que, aos dezenove anos, fora seduzida e abandonada por um japonês vesgo, de fala mansa, dono de uma tabacaria na Calle Esmeralda. Vencendo toda a sua repulsa, Rosa Carmona usou a ponteira do aspirador de pó para cutucar o ombro do homem adormecido. Não houve reação alguma. O oriental continuou exatamente como estava: imóvel e silencioso. A faxineira comprimiu os lábios e pensou:”Ou esse desgraçado está perdido no melhor sonho da vida dele... ou inventou de morrer bem aqui!”. A ponteira do aspirador tocou novamente o ombro do velho oriental, e desta vez com mais força, mas ele continuou quieto, indiferente. Rosa Carmona sentiu o rosto incendiado de ódio. Depois, o fogo do ódio passou a correr dentro de suas veias, misturado ao sangue que parecia a ponto de ferver. * 4 * (noite de 18 de março de 1998) O jovem padre recolheu as poucas notas e moedas depositadas nas quatro caixas de donativos da Igreja de San Telmo, colocou o dinheiro em uma sacola de plástico e foi seguindo pelo corredor lateral direito a caminho da sacristia. De repente, notou que alguém estava sentado no banquinho externo do confessionário. A cortina de veludo escondia quase inteiramente o corpo da pessoa, mas as pernas e os pés estavam visíveis. Era um homem de calça cinzenta e usava bons sapatos de cromo alemão. O padre estranhou o fato de alguém querer se confessar àquela hora tardia da noite. Ainda segurando a sacola plástica, entrou na cabine do confessionário e disse: “Que a paz do Senhor esteja convosco!”. Não escutou qualquer resposta. Através da janelinha forrada com o estreito biombo de vime trançado, enxergou o perfil imóvel do homem e, quase ao mesmo tempo, percebeu um rolinho de papel introduzido num dos orifícios do biombo de vime. Puxou o papel, desenrolou-o e, à luz penumbrosa do confessionário, conseguiu ler a frase “Padre, perdóname por mis pecados y errores.” “O senhor tem algum problema que o impede de falar? É isso? O senhor é mudo? Poderia fazer um sinal qualquer? Está doente? Precisa de ajuda?” O padre resolveu sair da cabine e acudir o visitante silencioso. Ao descerrar a cortina de veludo, deu de cara com um homem já idoso, de tez morena e sentiu aquele enjoativo bafio de formol... * 5 * (madrugada de 19 de março de 1998) O relógio marcava três horas da madrugada e a imponente sala de espetáculos do Teatro Colón estava completamente tomada pelo silêncio e pela escuridão. Na poltrona 35 da Plateia 1, um homem parecia adormecido. Suas mãos estavam pousadas sobre um velho libreto de Carmen, cujas páginas abertas indicavam o início do 2º Ato, Cena 1: “Sobe o pano e surge a enevoada e penumbrosa taberna de Lillas Pastia”. O homem que parecia adormecido trazia os lábios entreabertos como se estivesse prestes a cantar. Assim permaneceu até o amanhecer, quando, por volta das sete horas, alguém o encontrou ali e rapidamente tratou de fazer uma ligação para o posto policial. A polícia não comunicou nada aos jornais e as estranhíssimas ocorrências daquela noite foram atribuídas a um maníaco qualquer.
Escrito por Dennis D. : 21h44

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O Sonho / conto de Dennis D. / "Le Sommeil des Oiseaux" - Dennis D.
Sempre que eu sonho com meu filho, ele tem quatro anos e está com os bolsos cheios de vaga-lumes. Sempre é tarde da noite; sempre há uma lua cheia, amarelada e fosca; sempre uma coruja pia muito ao longe; nunca amanhece. Sempre que eu sonho com meu filho, eu abro meus braços e o recebo junto ao meu peito, o que é bom, mas dói demais. E ele sempre tem um perfume suave, ora de rosas, ora de angélicas, ora de florezinhas de limão. Sempre rimos, depois choramos; sempre eu peço para morrer e nunca morro. Acordo, que pena. 
Escrito por Dennis D. : 00h11

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Muita gente detesta canções da Broadway, porque quase sempre são tocadas de forma massacrante, mas é apenas um preconceito. Há melodias muito belas na Broadway, como esta "All I Ask of You". Espero que vocês gostem deste meu arranjo e da performance dos meninos. :D 
Escrito por Dennis D. : 23h42

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