Quando a chuva era mansa - geralmente pelo comecinho de novembro - a casa deixava-se afogar nos mantos sobrepostos dos cedros, cujos ramos perfumados punham-se a lamber as vidraças e a varrer as telhas patinadas de limo. Havia, então, aquele frescor indizível que parece umedecer as raízes da alma e, quase sempre, permite-nos compartilhar da sagrada lassidão das colinas e vales saciados. Não era uma casa qualquer, aquela: possuía a sua personalidade própria, incomparável, a revelar-se nos corredores estreitos, nos cômodos amplos, nas portas altas, nos gradis de trepadeiras, nas texturas desgastadas do reboco. A casa toda manifestava-se além da sua forma visível, como uma entidade misteriosa - guardiã de segredos profundos, sobre-humanos. Nela, evolavam-se ares do começo do século, sentia-se o cheiro dos velhos almanaques recobertos de gravuras primorosas, pressentia-se a fragrância sublimada dos jarros abarrotados de lírios e de melindres. À noite, todas as madeiras estalavam e, freqüentemente, ouviam-se passos perdidos, batuques de tambores longínquos ou cantigas lamentosas misturadas às monotonias do vento. Nas camas largas, sonhava-se muito. E esses sonhos eram tão plenos de realidade que, de todos os quartos, brotavam murmúrios indistintos, interjeições, suspiros, gemidos esparsos. Depois, ao irromper das primeiras claridades, todos os sobressaltos noturnos desfaziam-se no esquecimento: bastava abrir os olhos e deparar-se com a doçura da luz do sol insinuando-se pelos cortinados leves. As crianças, principalmente elas, saboreavam as delícias de habitar uma casa que pairava fora do tempo; uma casa extraordinária que parecia navegar nas dimensões da irrealidade, qual um galeão a exibir altivamente a sua bandeira indecifrável - a bandeira de uma pátria desconhecida de todos os cartógrafos da Terra. O café da manhã era um festim de louças retinindo, uma desordem de queijos, geléias e bolinhos fumegantes. Não faltava, então, quem fizesse um comentário acerca do sonambulismo de uma velha tia, ou mencionasse as esquisitices de um primo, ou dissesse qualquer amenidade a respeito de canteiros de malmequeres. Se havia guerra, crimes hediondos, se as grandes nações submergiam em crises políticas, nenhuma dessas mazelas parecia arranhar a carapaça invulnerável daquela casa. Era outra a vida; era outro o mundo; era o tempo das camélias mais brancas, dos céus mais azuis, dos mais dourados girassóis. Naquela casa, Maria Eduarda escreveu um poema de sete versos, dobrou o pautado sete vezes e escondeu-o na fresta de um sétimo degrau. Antonio Maria encontrou o poema em abril de 1942, quando já era tarde demais.
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(Conto em prosa poética / Dennis D. - Registrado na Biblioteca Nacional)