Produto descaído do coito irresponsável, João Mijado cresceu ao léu, nutrido com as pelancas da caridade, tal e qual a cria de uma cadelinha de rua.
A mãe de João Mijado era uma certa Maria Pernambuco, puta de cinco dinheiros, que se abria de pé, segurando a perna direita dobrada, ali nos corredores penumbrosos do Cortição da Paim.
Um dia, essa Maria Pernambuco foi encontrada morta, morta por esganadura, a boca aberta, a língua de fora, o pescoço todo sujo de graxa.
João Mijado nem sequer chorou, ao ver o cadáver da mãe ser recolhido e colocado no rabecão da Prefeitura. O menino permaneceu onde estava, sentadinho num degrau, nhoc-nhoc-nhoc-nhoc, ocupado em amolecer o caramelo toffee.
Passaram-se anos. João Mijado se fez comunista, chavista, fidelista e cineasta engagé. Ou seja: continua aquele mesmo filho da Maria Pernambuco.