Motivo Fútil e Torpe / Dennis D.
Maria Diaba, filha única do poderoso João Herodes, considerava-se a negra mais linda do bairro do Passalaqua. Via-se a si mesma como uma espécie de princesa núbia ou de semidéia do panteão africano, vivendo um injusto degredo em terras brasileiras. Degredo injusto, vil, mas confortável. O apelido, fez por merecê-lo. Não tinha sequer sete anos, quando matou um cão pastor a tesouradas (com o sangue do bicho, sangue ainda ralo e quente, desenhou casinhas no cimento da calçada); aos quinze, pedira ao pai que castrasse Mulatinho, José Marciano Reis, o primeiro amante e primeiro desgosto (Maria Diaba passou horas a contemplar a lata de goiabada que o pai lhe trouxera, e onde repousavam os bagos sanguinolentos de Mulatinho); aos vinte e cinco anos, olhou para sua própria história de vida e constatou, orgulhosa, que nenhum de seus inimigos permanecera de pé, sob o sol. Quantos mais viessem — pensou — melhor serviriam para estufar o estômago dos vermes. João Herodes tornara-se o imperador dos demônios, o flagelo negro do Passalaqua e de toda a cidade sombria, homem de aço, criminoso sem qualquer vestígio de compaixão, corpo fechado, raio traiçoeiro que explode e mata sem aviso de trovão. Pai e filha eram, por assim dizer, metades de um mesmo fruto venenoso. Logo atrás do sobrado em que morava Maria Diaba, existia a oficina mecânica do Zizo, irmão mais novo de João Herodes. Ex-alcoólatra, ex-assaltante, ex-estuprador, Zizo recebera um chamamento místico e agregara-se aos cento e quarenta e três fiéis da seita "Igreja Mundial do Cristo Coroado". Desde a sua conversão, ocorrida há dois anos, o mecânico sempre andava com um espinho seco preso à gola da camisa, traspassando o tecido, como sinal de que lá estava um verdadeiro cristão a carregar consigo, por onde andasse, a aceitação de todos os sofrimentos que o Bom Deus lhe enviasse.
Na oficina de Zizo, certo dia, apareceu um rapaz alto, branquelo, de nome Nicolau Wisniewski. Viera muito bem recomendado e não tardou a mostrar suas habilidades. Em duas semanas, salário acertado, ele assumiu a função de funileiro-chefe. O apelido já estava lá, para quem quisesse ler, tatuado no antebraço musculoso: "Polaquinho". Mal os olhos de Maria Diaba pousaram na figura do novo empregado, decidiu ela aparecer todas as tardes na oficina do tio. A cada dia, surgia a negra com uma tentação diferente; ora um decote atrevido, ora uma saia incrivelmente curta, ora um shortinho agarrado... Muitas vezes, derrubava propositalmente algum objeto — uma carteira, um par de óculos escuros, as chaves — para curvar o corpo e suspender o traseiro farto, oferecido. Polaquinho sorria, transpirava, desviava os olhos e prosseguia sua lida, refugiado nos detalhes do serviço. Deitada na cama, as janelas devidamente escancaradas para receber o som das marteladas do Polaquinho, Maria Diaba só fazia meter os dedos entre as pernas. Gemia baixinho, sempre a imaginar como deviam ser doces os beijos daquele polaco gostoso, como devia ser acetinada e alva a pele de seu membro, como seria delicioso sentir-se a fêmea, a vaca, a puta daquele anjo estrangeiro. Os devaneios culminavam num espasmo ondulante, sobrolhos tesos num arco, a boca aberta, silenciosa, vertendo baba grossa.
A notícia de que Maria Diaba estava enrabichada pelo Polaquinho não tardou a percorrer os pombais do Passalaqua. Ao mesmo tempo, alardeava-se que o rapaz era casado, muito bem casado, e que sua filha, um bebezinho de poucos meses, parecia um desses anjinhos louros que seguram o diadema de Nossa Senhora. A esposa? Diziam apenas: linda! Cansada de provocar inutilmente aquele respeitoso Polaquinho, Maria Diaba perdeu a paciência e declarou seu desejo. Foi direta, brutal, não queria deixar margem a dúvidas. Segurou firme o pulso do rapaz e ordenou: "Vou pra casa, Polaquinho! Dê três minutos e apareça lá. A porta estará aberta. Entre e suba a escada. O meu quarto fica logo em frente!" Ele não foi. Correu ao mercadinho, comprou um vistoso cartão postal e escreveu no verso: "Sou casado e amo minha mulher. Desculpe o mau jeito, Maria, mas continuamos bons amigos. Atenciosamente, Nicolau." Quem entregou o cartão foi Tarsilinha, filha mais nova de Zizo. Um silêncio pesado tomou conta da casa de Maria Diaba. Não se ouviu mais o som do rádio, ou da televisão, durante três dias e três noites. Dela mesma, de Maria Diaba, não se viu nem a sombra. Disseram que fora descansar na Praia Grande.
A filha de Polaquinho desapareceu numa segunda-feira. Foi tirada do bercinho, sem mais nem menos, enquanto a mãe saiu para comprar um litro de leite. Ao retornar da praia, Maria Diaba parecia tranqüila, quase feliz. Subiu ao segundo pavimento, entrou em seu quarto e encontrou, sobre a cama, aquela caixa térmica de isopor. A caixa era cor-de-rosa e tinha uma tampa branca, muito branca, tão branca que parecia irradiar luz. A filha de João Herodes estendeu a mão para abrir a caixa, mas sem qualquer pressa, sabendo perfeitamente o que encontraria ali dentro.
Escrito por Dennis D. : 09h08

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