O homem do quinto andar / Dennis D.
Amanhecer paulistano, chuvisco, luz filtrada pelas sete peneiras de chumbo, e este pneumotórax dos ventos - dos ventos de todos os ventos - que arrastam vícios e desfazem as teiazinhas das aranhas-papa-mosca.
No quinto andar do Edifício Montaigne, que posso avistar de meu apartamento, mora o Homem-Espantalho. Eu o chamo assim, porque ele traz a cabeça embrulhada num saco de aninhagem; uma cabeça de boneco de pano, relativamente pequena, onde alguém (gosto de imaginar que tenha sido ele próprio), numa noite rabiscada de raios, pintou dois círculos negros, imperfeitos, no lugar dos olhos. As mãos são feitas de palha, os ombros, sob o paletó escuro, parecem largos como o braço horizontal da cruz de Cristo, mas os gestos é que me impressionam mais. Gestos delicados, quase femininos, vagarosos, urdidos por aquelas mãos enfeixadas e que vivem a perder dedos.
Em seu terracinho de canto, o Homem-Espantalho tem três vasos de gerânios. Apenas um deles floresce - mas como floresce! Os gerânios abrem-se sangüíneos, imensos, uns após outros, escandalosos de lindos. Quase os escuto gritar ou gargalhar, ou cantar cantigas em línguas desconhecidas, como se estivessem arrebatados pelos dons do Espírito Santo das Flores. A beleza verdadeira só chega ao mundo pelas mãos dos desesperados. Gente plácida não cria beleza real, cria apenas imitação de beleza, alguma coisa que se ajeita em harmonias previsíveis, como a sonata que o músico imberbe se atreve a compor, para seu próprio deleite ou para envaidecer parentes e encantar amigos surdos. A beleza real é filha dos desesparados, dos loucos de dor ou dos loucos de alegria.
Eu e o Homem-Espantalho estamos separados por uma cortina de pudores, tênue, mas intransponível. Nunca nos falaremos nesta vida, mas eu o verei todos os dias, quando ele sair em seu terracinho de canto, muito discretamente, para narcotizar de amor os seus três vasos de gerânios. Ele também verá a mim, todos os dias, com o rabo dos olhos de pano, quando eu for ao meu terraço beijar os céus entrevistos em vãos, ou espiar como está o tempo, se frio ou quente, nesta minha cidade de vívidas agonias, ou olhar para baixo, quase morto de medo e de encantamento, só para fantasiar meu suicídio.
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(Conto de Dennis D. / Registrados todos os Direitos de Autor - Biblioteca Nacional)
Escrito por Dennis D. : 13h34

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A velha, seu velho e a bomba / Dennis D.
Aos sábados, depois do jantar, naquela hora em que as galinhas já haviam adormecido e os porcos da pocilga, devidamente enfastiados, esparramavam seus gordos toicinhos uns sobre os outros, o velho e sua velha punham-se a fazer coisinhas. Coisinhas secretas, sem-vergonhices molhadas com cuspe, perversões gozosas de arrepiar as carnes de dentro das carnes, de eriçar os pêlos das bordas dos buracos todos. Em seus festins lascivos, o velho e sua velha usavam uma bomba de lata. Eu disse 'bom-ba-de-la-ta'! Descreverei o objeto. Era uma bomba cilíndrica, que aspirava e soprava ar, que sugava e expelia líquidos, e tinha três bicos removíveis, cada qual com seu comprimento e grossura. Como toda e qualquer bomba manual, havia naquela, é óbvio, a haste móvel de bombar. E quando a haste se movia para frente e para trás, para dentro e para fora, ouviam-se os bufidos que se emendavam noutros bufidos, todos dentro de um ritmo constante. "Primeiro você, depois eu!", disse a velha ao seu velho, que já exibia a bunda grande, gelatinosa, oferecida. Ele gritou:"Sacode a bomba, mulher, empurre a vareta com força, empurre sem dó de mim! Da outra vez, você perdeu as forças bem pertinho da horinha boa! Sacode a bomba, minha vaca, minha égua, minha marreca rombuda! Esguiche o mingau quente na gamela, sua anta sem unha, sua jumenta de circo, sua cadela de sarjeta, sua meretriz de quartel, sua chupadora de sabugo! Comece já, sua leprosa cotó, sua lombriga de penico, sua larva de ferida, sua barata de cemitério, sua badalhoca de cu de bode! Vamos! Comece a sacudir a bomba! "Sinto muito, meu velho, mas a vareta partiu-se ao meio." "Que lástima, minha adorada, então venha para a cama, vamos rezar e dormir mais cedo." "Mas... o que faremos com todo este mingau, meu velho?" "Vá buscar uma colher, minha vidinha, meu encanto, meu botãozinho de flor de maracujá."
Escrito por Dennis D. : 13h33

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