Tio Dorian / Memórias de família / Dennis D.
Tio Dorian, que na verdade tinha outro nome, adorava fazer rir a Mandarina, criada caduca de minha bisavó, e, para tanto, sempre lhe dizia as mesmas quadrinhas que se iam, a alta voz, declamadas em tom de malícia: "A rosa quer-se apanhada / antes de sair o sol, / o cravo ao meio-dia, / pra o seu cheiro ser melhor. / As senhoras da cidade / têm grande opinião; / não sabem como hão de andar, / nem poisar os pés no chão." "Pára! Pára!" - suplicava a velha desdentada, no entrecorte das gargalhadas, e referia-se a si mesma como um ente em separado, uma terceira pessoa por quem tivesse especial carinho - "A Mandarina num güenta ! Cuida dela! Cuida dela! Pára! Pára, por amor a Nossa Senhora!" Tio Dorian não parava. E mais quadrinhas lá se iam pelo quarto, as mesma que a velha já ouvira outras centenas de vezes: "Chovam raios de toucinho, / centelhas de queijo mole, / venham quartilhos de vinho, / que este maltês tudo engole." "Pára, malvadinho! Ai, ai, que me falta o ar! Ai, que eu me 'insufoco'!"- berrava a Mandarina, caindo sentada na cama e logo tombando para trás, vestido branco enfunado a revelar dois saiotes-de-baixo feitos de panos mais grosseiros, com barras desfiadinhas. Tio Dorian, mãos na cintura, inclinava o torso para frente. Berrava a última quadra: "Boa herva é o poejo, / que se deita na açorda; / racha-me a cara com beijos, / tem cautela, não me mordas." Com uma seqüência de gritos agudos, a Mandariana punha-se de pé, depois saía a correr, agarrada ao avental, cambaleando as pernas fininhas, duas ou três mechas de cabelos brancos voejantes escapadas do amarrilho da touca ainda mais branca. Já bem ao longe, ouvia-se a velha Mandarina pedir socorro à cozinheira: "Luzia! Acuda, Luzia, que estou me 'insufocando'!" Tio Dorian aprumava-se diante do espelho, puxava para baixo as pontas do colete, descia as escadas correndo e saía de casa ao encontro de suas putas. Mandarina, afogueada, abanava-se e murmurava quase em êxtase: "Ai, se eu já não estivesse noiva, juro que fugia com aquele malvadinho!" Nesse momento, geralmente, Tio Dorian virava a esquina. Só no prenúncio do canto do galo é que retornaria a casa. Mandarina, então, já estaria acordada, para lhe abrir a porta. Ninguém mais perceberia a chegada do farrista. ... A rosa quer-se apanhada / antes de sair o sol, / o cravo ao meio-dia, / pra o seu cheiro ser melhor.
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(Titio-vovô Dorian nunca se casou. Morreu velhinho, em seu quarto, ao som das óperas transmitidas pela Rádio Eldorado de São Paulo. O noivo da Mandarina nunca foi visto por ninguém. Era, por certo, um ente imaginário que lhe servia como uma espécie de negação da própria velhice.)
Escrito por Dennis D. : 09h27

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A breve e triste história do Godivo de Taquari / Dennis D.
Muitos anos já se passaram, desde a morte de Esaú Borelli, Esauzinho, o Godivo de Taquari. Mesmo assim, antes de escrever este texto, eu tive o cuidado de conversar com Jacob, irmão gêmeo do falecido. Jacob é meu vizinho há anos. Hoje, com seus quarenta e poucos anos, proprietário de uma famosa cadeia de lojas de moda masculina, ele gosta de relembrar o início da sua trajetória profissional. Rapazola, veio do Rio Grande do Sul tentar a sorte em São Paulo - isso lá pelo final da década de setenta - e acabou fazendo fortuna. Virou paulista e paulistano, daqui não sai, fincou raízes neste chão escuro de Piratininga. "O que você acha, Jacob, escrevo ou não escrevo um conto inspirado na história do seu irmão?" "Escreva, Dennis!" - disse Jacob, entusiasmado. ...
Essa história do Godivo de Taquari foi, realmente, um insólito jogo de luz e sombra. Fico a imaginar quantos comentários escabrosos o caso deve ter suscitado, àquela época e naquela moralista cidadezinha gaúcha. Ah, preciso evitar divagações. Quanto mais resumidamente eu for capaz de narrar a história do Godivo, tanto mais interessante há de ficar o texto, bem sei, mas sinto aquela vontade danada de ficar investigando os aspectos psicológicos do ocorrido, esmiuçando as filigranas do velho escândalo taquariense... Não sei, e não há modo de alguém vir a saber, como foi que o caso todo começou. O certo é que, belo dia, o prefeito de Taquari resolveu incomodar-se com o garoto alto que passeava de bicicleta na praça, defronte à sede da prefeitura. Chamava-se Silvério Silveira, o alcaide barrigudo, bigodudo e cadeirudo, cujo patrono espiritual era - mais por fidelidade à classe profissional do que por assimilação de exemplos virtuosos - São Dimas, o Bom Ladrão, aquele que morreu ao lado do Nazareno.
O garoto em questão, Esaú, 17 anos, era filho do doutor Vincenzo Borelli, o mais velho e mais respeitado clínico geral da cidade. Entre o prefeito e o jovem ciclista havia bem mais do que um abismo de gerações; havia todo o contraste possível entre um canzarrão bravo e babento (o primeiro) e uma lépida raposa (o segundo), alegre, feliz consigo mesma, disposta a saborear o puro prazer de estar viva. Se um era o gelo, o outro era o fogo; se um era a malícia bem estudada, o outro era a vivacidade instintiva e natural de quem carrega um coração limpo e alma sempre bem lavada e cheirando a folhas de gerânio. Vamos esclarecer um ponto: não foram os passeios de bicicleta de Esaú que passaram a irritar o prefeito, mas o fato de o mancebo, ao pedalar tão vigorosamente seu veículo, não se dar conta de que deixava à mostra um bom pedaço do rego da bunda. Sim, era justamente o rego da bunda de Esauzinho, exposto à plena luz do dia, sem quaisquer culpas ou pudores, que afrontava Silveirinha, que o tirava do sério. "Podem avisar esse rapaz abusado; ou ele se comporta decentemente ou meto-o na cadeia... por ofender a moral e os bons contumes." Menelau Barroso, um vereador puxa-saquista, um lambe-esporas, viu-se na obrigação de alertar o prefeito: "Esse Esaú Borelli é menor de idade, excelência. Diz a lei..." Aos berros, o alcaide interrompeu-o: "Não me venhas com tuas merdas, Barroso. Fodam-se as leis! Eu estou no meu papel de defensor da moral pública. Aplico um corretivo nesse filho da puta aporreado ou não me chamo Silvério Silveira da Silva. Alguém duvida?" Ninguém ousou contrariar o prefeito, até por que não diantaria; o homem era teimoso e truculento. A ameaça, entretanto, foi levada ao conhecimento do dr. Borelli, que se mostrou contrariado e mandou chamar os filhos gêmeos. "Jacob, peço-te; bota juízo na cabeça do teu irmão. Tenho muito trabalho e não posso passar as tardes a vigiar meus dois filhos marmanjos. Se minha amada esposa estivesse viva, como acham que ela lidaria com essa vergonhosa história de bunda ao léu? E tu, Esaú, custa-te usar um cinto nas calças? Custa-te colocar na cintura o diabo do calção de futebol, como é o apropriado? Não, não me venhas com desculpas rotas, Esaú. Toma juízo, filho, e não me envergonhes diante da cidade. Jacob, cuida do teu irmão..." A partir desse dia, nunca mais Esaú passeou de bicicleta na praça da prefeitura. Fez pior, muito pior. Pouco antes da meia-noite, sempre em dias salteados, o garoto se despia completamente, montava na bicicleta e pedalava, veloz, em direção à rua onde morava o prefeito Silvério Silveira. Diante do sobrado, principalmente estando as filhas do alcaide a conversar na varanda, o guapo Esauzinho passeava sua peladice, sem fazer conta dos gritinhos nervosos das chinocas. A notícia correu por toda a Taquari, não sobrando uma só alma desinformada. Logo, o professor Setrônio Varela, passou a referir-se a Esauzinho como "O Godivo de Taquari". O Diário Taquariense repetiu o termo em um de seus artigos mais comentados e o apelido pegou de vez. Enquanto a cidade fervia de excitação, o prefeito Silvério Silveira fervia de ódio e jurava vingança. Se as cercanias da casa do prefeito ficavam repletas de curiosos, apinhadas dessa gente que vinha de longe, até das estâncias perdidas nos confins da fronteira, só para ver o Godivo... Esauzinho aparecia em outra rua, no extremo oposto da cidade, causando o mesmo rumor, a mesma agitação. Pondo-se o povo no novo palco, Esauzinho despistava e retornava à rua da casa do prefeito. Um dia, excedendo-se na traquinagem, o Godivo saudou Maria Guilhermina, a filha mais nova de Silvério Silveira, com um aceno carinhoso, um beijo soprado e... o membro ereto a tremer sobre o selim. "De verga dura já é demais!" - berrou o alcaide, faces rubro-arroxeadas. Dez minutos depois, sobreveio-lhe o derrame. O prefeito não morreu, mas foi por pouco, por muito pouco. Passados quinze dias, quando ele retornou à sede da prefeitura, ostentando a boca torta e um prolapso de pálpebra, nem parecia o mesmo homem. Aparentava uma serenidade de monge contemplativo e um sorriso cândido. Até seus gestos, antes abrutalhados, tornaram-se harmoniosos, gestos de fada açucarada, se é que tal delicadeza existe. Nesse mesmo dia, ao cair da tarde, Esauzinho foi encontrado na escarpa de um barranquinho de saibro, nu e com um furo de bala na testa. A bicicleta, companheira inseparável, estava ao lado do corpo, destruída a golpes de marreta. Toda a Taquari bem sabia quem havia sido o mandante do crime, mas nunca se conseguiu provar coisa alguma. Inquérito arquivado, malvadeza impune, restaram a dor do velho pai e a saudade eterna do irmão gêmeo. Restou, também, uma foto do Godivo de Taquari, todo guapo e pelado, ao lado da sua bicicleta negra, que ele apelidara de "Silveirinha".
Não faz tanto tempo que tudo isso aconteceu. Os assassinos de Esauzinho, executor e mandante, ainda vivem. Vivem como vermes, por certo, mas ainda vivem. Quem visitar Taquari e puxar dois dedinhos de prosa com os mais velhos, provavelmente encontrará quem se lembre muito bem do Godivo. E confirmarão o que lhes digo agora, no finalzinho desta narrativa: Esauzinho nunca fez nada por mal, apenas quis brincar; era um menino!
Escrito por Dennis D. : 19h18

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