Negoloiro / Dennis D.
Negoloiro
era grande de meter medo. Zarolho, orelhudo, beiçudo, mãozudo, mas doce. Homem
de alma doce faz bom mingau, já dizia o polaco Nikolaj Kopernik, primo do Dante
Gabriel. Homem de alma doce também sabe descaroçar manga-espada fiapenta,
assossegar burro xucro e curar ressentimentos de puta velha. É dom, é sina,
coisa sabida desde que o mundo é mundo.
Ao
açougueiro Casalberto de Paula, entretanto, não interessava se a alma de
Negoloiro era banhada em mel ou em fel. Interessava, sim, e muito, a força bruta
do negro musculoso, capaz de carrregar um boi inteiro nas costas, tanto fazia se
o bicho estivesse vivo ou morto. Por isso, Casalberto dera o emprego a
Negoloiro, e não ao seu próprio sobrinho, um rapaz apelidado de Italianinho,
finório de lábia e imbatível na habilidade de fazer contas de cabeça.
Um dia,
aconteceu de Negoloiro esbarrar de leve no seio de uma freguesa do açougue. Foi
um gesto totalmente involuntário, aconteceu por acontecer, na hora de estender o
braço e entregar o pacotinho com meio quilo de carne moída sem
pelancas.
A
freguesa fez um escândalo napolitano, chamou Negoloiro de negro tarado, garantiu
que iria até a delegacia registrar um boletim de ocorrência. Casalberto já deu o
aviso: “Se a Dona Orsola for mesmo registrar queixa na Polícia, você será
demitido, Negoloiro. Demito você por justíssima causa.”
Dois
dias se passaram e Negoloiro foi levado à presença do delegado João
Pistolim. Este, depois de rápida entrevista, declarou a quem quisesse ouvir: “Se
este bom homem aqui for demitido do açougue do Casalberto, eu faço questão de o
contratar como ajudante geral. Contrato na hora, na horinha!”
Dito e
feito, Negoloiro passou a trabalhar com o delegado Pistolim, com o qual se
ajustou às mil maravilhas.
Na
antevéspera do Natal, o corpo de Casalberto foi encontrado nos fundos do
açougue, com um facão de quarenta centímetros enterrado no meio do peito. Nem
bem a coisa esfriou, e já no Dia de Reis, o filho mais novo de Dona Orsola
apareceu sem as orelhas. O menino nem viu quem foi que o agarrou e entupiu sua
boquinha de morango com a estopa embebida em clorofórmio. “Ficou tudo preto,
tudo preto!” – o garotinho repetia feito um disco quebrado.
Negoloiro lustrava pacientemente a escrivaninha de mogno do delegado
Pistolim, quando este entrou e pousou-lhe a mão no ombro: “Deixa o povo falar,
meu nego. Quem está comigo está com Deus! Vamos, não te acanhes, aceita esta
paçoquinha de rolha. Foi a Doralice que te mandou. Paçoca de primeira, feita lá
em casa, meu nego, no maior capricho.”
Escrito por Dennis D. : 16h36

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