Medo de Escuridão / Dennis D.
Álvaro da Graça perguntou ao seu menino: "Filho, se você tem medo da escuridão, por que não aperta aquele botãozinho de acender a luz?" Álvaro da Graça Júnior, sete anos, voz tremida e glúteos contraídos, respondeu-lhe assim: "Porque o medinho, meu papaizinho, é gostosinho demais!" Álvaro, o pai, quis rir, mas não riu. Controlou-se, a fim de conhecer a essência dos temores do menino.
"Filho, agora diga ao papaizinho o que você imagina que possa existir lá no meio da escuridão." Disse Álvaro Júnior, enquanto apertava uma coxinha contra a outra: "Existe a cabeça sem corpo, meu papaizinho, que é cega, que é surda, que é muda e que fica mastigando um coração roubado do cemitério! Coraçãozinho de criança que morreu sem pecado, meu papaizinho. E a cabeça sem corpo voa pra cá e pra lá, e sobe ao teto, e desce ao chão, e fica escondida atrás das cortinas - nhác-nhác, nhác-nhác - a mastigar o coração do anjinho. Depois, com a língua toda de fora, ela rola escada abaixo, porque fica doida de sede e não encontra sangue quente para beber. A cabeça sem corpo come carne de morto inocente, meu papaizinho, mas gosta de beber sangue de pecador vivo." Álvaro, o pai, coçou o queixo, onde existia um pequeno corte ainda mal cicatrizado. Uma gota de sangue aflorou na sua pele branca, como se fora um rubi cabochão colocado sobre uma hóstia. Álvaro Júnior viu o brilho da gotinha de sangue e correu a apagar todas as luzes da sala. "Vem depressa!", gritou o menino, batendo os pés e mijando-se de prazer. "Vem depressa, antes que a gotinha seque!" Álvaro, o pai, começou a rir. Só parou de rir, porque morreu. E só morreu porque sentiu aquela língua larga a lamber-lhe o queixo. Foi assim que aconteceu.
Escrito por Dennis D. : 19h44

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A escada, os mares e os caramujos / Dennis D.
Eu fui o tolo piedoso de sempre, por isso desci aqueles dezessete degraus. Talvez eu ali estivesse muito mais por mim do que por você, que já não passava de um corpo dobrado sobre si mesmo, a nuca rabiscada com tinta azul de esferográfica, os longos braços arranhados até os pulsos, as palmas das mãos voltadas para cima, como se esperassem receber qualquer coisa, fosse uma moeda de cinco centavos, fosse um toco de cigarro aceso, fossem duas ou três lambidas do cão da morte. O seu corpo rendido pesava mais, pesava o dobro, mas eu o ergui num abraço que provocou dois estalos nos ossos dos meus ombros. Começamos a subida, porque eu sou o tolo piedoso de sempre, porque nasci para fazer esforços inúteis, e porque tenho a imensa dificuldade de aceitar o inevitável. A sua respiração, bem próxima do meu ouvido direito, me recordava os sons aprisionados nos caramujos gigantes - sons semelhantes ao ruído cíclico infinito das ondas do mar, algo que ora aflige, ora tranqüiliza – justamente porque, a um só tempo, nos diz absolutamente tudo e absolutamente nada. De repente, veio-me a certeza: aquele seria o instante perfeito para você descobrir se realmente existem praias dentro dos caramujos gigantes. Estávamos bem no alto da escada, quando afrouxei os braços. Você escorregou de flanco, depois rolou até o último degrau. Lá embaixo, tudo de você ficou reduzido a um amontoado de trapos, carnes magras e indiferença. Você não havia morrido para mim, nem eu havia morrido para você, mas – naquele exato momento - invertemos nossas posições. Então eu vi. Eu vi tudo o que havia para ser visto. A sua tola piedade fez com que você descesse aqueles dezessete degraus e viesse ao meu encontro. Eu, entretanto, já não estava ali, senão tecnicamente. Eu era o corpo sem desejos dobrado sobre si mesmo. Alguém rabiscara a minha nuca com uma caneta esferográfica azul. Alguém arranhara meus braços com pregos enferrujados, com lascas de vidro, com um aparelho de barbear descartável – recordo-me que branco encardido. Alguém me deixara sem as meias e com um único sapato. Meu coração era uma cripta de metal inoxidável. Teria sido muito bom morrer naquele dia, se você tivesse tido a delicadeza de permitir a consumação da minha boa morte. Você não teve a delicadeza. Você preferiu descer aqueles dezessete degraus, todos os dezessete, ao impulso da tola piedade de sempre. Fossem trezentos degraus, você os desceria também, olhos hipnotizados pelos rabiscos indecifráveis que eu trazia em minha nuca. “Por que você me condenou à vida?” – eu quis perguntar, mas não perguntei. “Por que você não afrouxa esses braços?” – eu gritei lá do fundo de mim. Do resto, do que veio depois disso, pouco me lembro. Vapores de éter sobem ao céu. Você não morreu para mim, nem eu morri para você; apenas invertemos nossas posições. E ambos despertamos na praia de um mar de sombras, naquela noite sem lua, debaixo de dezessete estrelas, dentro de um caramujo gigante, o qual estava destinado a permanecer em cima de um piano, durante décadas e décadas, ao lado de um copo de veneno. Nada mais.
Escrito por Dennis D. : 19h36

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