
"Quebrem os violinos!", gritou a velha maestrina a sacudir suas tranças falsas, longas, fulvas, feitas com crinas de cavalinhos de carrossel e atadas, nas pontas, com fitilhos de rocio.
Pôs-se de pé, a velha, e já não era maestrina, e sim uma puta de galopadas tardias, viúva de um tal Capitão Evaldino Flores, discreto macho de doze centímetros, dois milímetros e um cisco.
Assim transformada, a velha caminhou, cai-não-cai, sobre o tapete de gemidos vulgares, a pisar em dúzias de vogais gozosas, todas muito abertas, prolongadas, que desmaiavam em sopros quentes. Lembrou-se dos três melhores amantes: Pedro, Pedro e Pedro. Lembrou-se do botão de prata que o mais cavalão lançara contra a parede ao arrancar a camisa.
À luz da luminária de néon, leque negro na mão, a Viúva Flores se fez Baronesa do Viterbo, muito altiva, encilhada com diamantes. Abaixou o queixo e disse: "Minhas meninas estão lindas! Que saudade!"
Presas ao decote da camisola, a velha trazia duas baratas albinas encoleiradas, vivas, inquietas, cujas asinhas um pajem imaginário pintara com listras azuis e douradas.
"O repasto está servido", anunciou o Dr. Fatal. Entre seus dedos, a seringa cuspiu longe as lágrimas de um anjinho de Boticelli.
"Não tenho fome", choramingou a velha, mas estendeu o braço.
O Dr. Fatal prometeu: "Não vai doer, vovó."
Ela apertou os olhos, trêmula de amor.
Chegou o Ano Branco.
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(Vira e mexe, estou a escrever sobre a loucura e a poética da loucura. Acho que há grandezas ainda não percebidas nesses mundos misteriosos que os loucos habitam, e de onde emergem com seus risos e com seus pavores, com suas rosas que falam, com seus murmúrios e cantorias.)