A Terceira Esfera / Dennis D.
Em Vila do Mangabal, lá pelos idos de mil novecentos e qualquer coisa, apareceu um sujeito de nome Pandolpho de Mantorrinhas, finório como pinto de lambari, bochechas amarelas, sobrancelhas e barbicha à la Mefistófeles. O tipo usava uma bengalinha negra, mas não era nem velho, nem mágico. Moço também não parecia ser, porque a sua cara diabólica exibia uma pele castigada como cotovelo de velha janeleira. E os dentes do homem? Dentes cavalares! Ao sorrir, esperava-se que esse tal Pandolpho relinchasse ou, pelo menos, que sacudisse os beiços.Tirando tudo isso, podia-se dizer que lhe sobrava alguma simpatia. Na praça, cercado pelo povo, o forasteiro abriu sua valise e dela retirou um negócio esquisito, todo cheio de pontas metálicas. Foi desdobrando a coisa, puxando aqui, apertando ali, até que o negócio esquisito tomou a forma de uma mesinha. Sobre o tampo dessa mesinha, Pandolpho estendeu um tapetinho de veludo carmesim, ataviado com galões e brocados. O povo se achegou dois passos. Da valise foi então retirado um globo de vidro, aparentemente vazio, do tamanho de uma laranja. "Aqui", disse o forasteiro, "dentro desta esfera de cristal tcheco... está preservado o... o último... o derradeiro... SUSPIRO DE MARIA ANTONIETA, A RAINHA DE FRANÇA!" "Ooooohhhhh!!!", fez o povo. "Sim", prosseguiu Pandolpho de Mantorrinhas, "o derradeiro suspiro foi colhido... segundos antes que a lâmina fria da guilhotina tombasse sobre a alva nuca real!" "Ooooohhhhh!!!", fez o povo, outra vez. O homem depositou o globo sobre o veludo carmesim e meteu novamente a mão na valise, dela retirando um segundo globo de vidro - em tudo semelhante ao primeiro. "E aqui", anunciou, "dentro desta outra esfera de cristal tcheco... está preservada... a última... a derradeira... BUFA EXPELIDA PELO SUBLIME POETA OLAVO BRÁS MARTINS DOS GUIMARÃES BILAC!" "Ooooohhhhh!!!", fez o povo, pela terceira vez. "Exatamente", afirmou o forasteiro, "a derradeira bufa foi colhida no próprio leito de morte do majestoso lírico parnasiano!" "Ooooohhhhh!!!", fez o povo, pela quarta vez. Pandolpho de Mantorrinhas meteu novamente a mão na valise e dela retirou outra esfera, em tudo e por tudo semelhante às duas primeiras. "Atenção!", bradou. "Agora eu peço o mais absoluto e respeitoso silêncio!" Fez-se o silêncio absoluto. Absoluto mesmo. Nem sequer se ouvia o sopro do vento nas rendas verdes das sibipirunas. Nem sequer se ouvia o pipilar da passarinhada, ou o barulhinho da água da fonte, ou um simples ronco de barriga vazia. Nada, nada, nadica. Após a pausa enervante... Pandolpho de Mantorrinhas estendeu o braço para o alto. "Aqui, cavalheiros e damas, aqui nesta diminuta esfera de cristal tcheco... está preservado... algo que se pode chamar de A MAIS PRECIOSA RELÍQUIA RELIGIOSA DO MUNDO INTEIRO! Aqui, bem aqui, no interior desta delicada bolha vítrea... se encontra..." Foi nesse exato momento que Berninho, o cachorro preto do bêbado Zé Maluco, resolveu tirar um cochilo bem debaixo da quase etérea mesinha desmontável. Numa reação instintiva, ao perceber o desastre que estava para acontecer, Pandolpho de Mantorrinhas soltou a esfera que segurava e tentou agarrar a mesinha. Tarde demais! O traseiro gordo e sarnento do cachorro Berninho foi mais veloz do que as mãos do forasteiro. Tudo desabou. "Ooooohhhhh!!!", fez o povo, pela quinta vez. Seu Genésio, o mais do que franco dono da mercearia, lamentou-se em voz alta: "Lá se foi o último suspiro da rainha de França, minha gente! Lá se foi a derradeira bufa de Olavo Bilac, e lá se foi a relíquia religiosa mais preciosa do mundo inteiro - que, aliás, nem chegamos a saber se tinha vindo do Velho ou do Novo Testamento. Puta que pariu, minha gente! PU-TA-QUE-PA-RIU!"
Escrito por Dennis D. : 23h03

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Já está online o novo número de Minguante, revista portuguesa de micronarrativas. Sim, sim, já lhes adianto que há dois pequenos contos meus na presente edição. Convido meus leitores a saborear a revista inteira. Na primeira página, vocês encontrarão links para todas as seções. Se quiserem começar pelas micronarrativas, cliquem em autores. Cada autor tem uma página de apresentação, onde também se encontra o link que leva diretamente ao trabalho publicado.Os autores listados são portugueses, brasileiros e espanhóis. Divirtam-se, meus amigos. Vocês ficarão viciados em micronarrativas. Felizes leituras! Clique MINGUANTE!
Escrito por Dennis D. : 20h17

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