Dennis D.


Pérola Alba / Dennis D.

A assassina estava sentada no último banco, bem ao fundo do corredor, provavelmente porque lá existia um vitral alegórico que, mesmo danificado, ainda funcionava como um magneto irresistível. O vitral representava uma passagem do Apocalipse de João, o Profeta, onde a Mulher Vestida de Sol, trazendo na cabeça o diadema das doze estrelas, equilibrava-se sobre o crescente lunar.
Os olhos grudados na figura mística, a assassina talvez se perguntasse qual seria o nome daquela santa ou Madona, cujas vestes brancas se mostravam sombreadas pelas fezes das pombas, o que produzia um efeito de nódoas em renda, de suntuosidade, mais do que ultraje.
Não foi pelo senso de responsabilidade, nem por compaixão, e muito menos pelo desejo de parecer um profissional frio e competente, que eu concordei em sentar-me diante da assassina. Foi por morbidez; um motivo tão justo e tão útil quanto qualquer outro.
Retirei do bolso da camisa uma caderneta minúscula, com capa de falso couro de crocodilo, na qual estava preso um lápis igualmente minúsculo, curto e magro, com a grafita afilada na lixa de uma caixa de fósforos. Abri a caderneta, molhei a grafita na ponta da língua e disse:
"Estou aqui, minha senhora, para anotar quaisquer declarações que queira fazer, ainda que meus registros venham a ser apenas os preliminares e, por assim dizer, quase informais."
Ela quis saber a razão de não estarmos em uma saleta reservada, com a porta trancada e os aparelhos de gravação ligados. Expliquei que tudo isso aconteceria em uma etapa seguinte. Pedi-lhe desculpas pelo local da nossa entrevista, fingindo um constrangimento respeitoso, o que nunca deixou de ser uma estratégia eficiente, para quem deseje criar uma ilusão de confiabilidade.
"Qual o seu nome completo, por gentileza?", perguntei-lhe, procurando não parecer nem ansioso, nem desinteressado.
"Maria Hildefonsina Navarro de Barros Reis, professora diplomada", ela respondeu, a arranhar todos aqueles erres, como se estivesse ao curso de um exercício fonético.
Olhei para baixo e vi que a assassina calçava um par de sandálias de tiras vermelhas, tiras que se entrecruzavam a apertar seus pés inchados, cujos dedos - com as pequenas unhas pintadas de vermelho fúcsia - pareciam uma ninhada de leitõezinhos mortos. E mais abjetos ainda se me afiguraram aqueles pés, no instante em que um raio de sol incidiu diretamente sobre eles, a iluminar todos os detalhes horrendos, como as frieiras disfarçadas com amido de milho, como os calos empilhados nos dedos mínimos, como as trilhas de vermelhidão sob as tiras justas demais, como a sujeira que esfumava todos os contornos e preenchia todas as rachaduras.
Ela pediu meio copo d'água. Eu fui a ter a pia, abri a torneira, enchi exatamente a metade de uma caneca de plástico. Estendi a mão. Ela agradeceu, apanhou a caneca e bebeu apenas um golezinho, como fazem os oradores experientes, antes de pronunciar um discurso.
"O senhor está com pressa?", perguntou-me. "É que eu prefiro começar do começo, do comecinho de tudo, se me der permissão."
"Não tenho pressa, Dona Hildefonsina, esteja à vontade. O importante é que me relate tudo o que esteja aí dentro de sua memória, cada fato, cada detalhe que a tenha levado a cometer os atos que cometeu."
Ela tornou a olhar para a Mulher Vestida de Sol, como se estivesse em busca de algum alento.
"Quando menina", começou, "o meu maior desejo era eletrocutar uma vaca. Não me refiro a uma vaca qualquer, mas a uma vaca específica, chamada Pérola Alba, que tínhamos em nosso sítio de Pouso Feliz. Lembro-me do dia em que encontrei uma revista O Cruzeiro, trazida pelo padrinho de minha irmã mais nova. Nessa revista, nas páginas centrais, descobri a fotografia de uma cadeira elétrica genuína, lá dos Estados Unidos da América do Norte. Ao lado da fotografia, encontrei também a descrição - minuciosa e impressionante - de como morriam os condenados àquele tipo de pena máxima. Fiquei fascinada. Foi quando nasceu dentro de mim o desejo de ver nossa vaca morrer daquele jeito: trêmula, a língua toda para fora a explodir em sangue e vapores; as tetas a esguichar leite fervente; os olhos em cozimento acelerado, de dentro para fora; os pêlos a fumegar, crestar, virar carvão e, minutos depois, apenas cinzas. Tudo isso porque eu odiava Pérola Alba, a nossa vaca, o senhor compreende? Ela não era uma vaca gentil, humilde como todas as vaquinhas que vemos nas embalagens de chocolates finos. Tampouco se parecia com as vacas dos presépios católicos romanos, sempre mansinhas, deitadas sobre a palha. Pérola Alba era uma vaca má. Tinha olhos maus, cheiro de peste negra, maus instintos, vivia coberta de moscas enormes, negras, zunideiras, as quais, obedecendo as ordens de Pérola Alba, se embarafustavam dentro dos meus cabelos, com o propósito de picar minha cabeça e ali depositar seus ovos. Eu corria, desesperada, e percebia a alegria de Pérola Alba. A vaca arreganhava os dentes assim (ela mostrou os próprios dentes, cujos caninos estavam manchados pelo batom coral) rindo feito um demônio. Dava aflição de olhar. Dava medo. Um dia, então, eu tive aquela idéia de apanhar os fios da bomba do poço e amarrar suas duas pontas de cobre nas pernas de Pérola Alba. Depois joguei dez baldes de água na vaca odiosa, porque papai sempre nos dizia que a água faz aumentar a potência do choque. Liguei a chave da eletricidade. Foi o dia mais feliz de minha vida; Pérola Alba torrou-se embrulhada naquele clarão azul-cobalto. Quando caiu, caiu torta e pesada, desengonçada, molambenta, escura, fazendo com que eu risse até me doer as tripas."
"Por que a senhora começou a matar aquelas crianças?", perguntei-lhe, para tentar puxar o relato a tempos mais atuais.
"Eu não tinha escolha alguma, tente compreender, senhor. Não eram crianças de verdade. Eu notava, atrás dos olhos delas, os olhos de Pérola Alba. Os mesmo olhos maus, que olhavam para mim, arregalados, com ódio e espanto. Pérola Alba continua viva; ela aprendeu a entrar dentro das crianças, para comer a alma e o coração desses inocentes úteis, e usar seus corpos, gargantas, ouvidos, braços, pernas mãos, pés, tudo que lhe possa servir ao propósito."
"Que propósito, Dona Hildefonsina? Uma vingança?"
"Sim, só pode ser uma vingança, o senhor não acha?"
Chegara o meu momento. Eu poderia deixá-lo passar, mas quis fazer a experiência. Aproximei meu rosto do rosto da assassina, abri bem os olhos e sussurrei: "Eu estou aqui, no fundo dos olhos deste homem, Hildefonsina, e você já não tem saída. Mate-se! Mate-se! Agora!"
...
A Mulher Vestida de Sol espatifou-se em mil pedacinhos. Esses pedacinhos se esparramaram pelo pátio, pelos telhados próximos, escorregaram em algumas calhas, cintilaram encantadoramente à luz da tarde.
O vitral foi substituído por uma janela de alumínio, leve, inoxidável e prática. Ficou bem mais fácil a remoção dos excrementos das pombas, o que também ajudou a dissipar a catinga e a afastar as moscas. O único problema - mas isto só diz respeito a mim - é que matar pode se tornar um hábito perigoso.


 Escrito por Dennis D. : 11h24

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