Lembranças / Dennis D.
Perto da casa de meus avós, num casarão de três andares, vivia um homem magro, alto, meia-idade, pele muito clara, cabelos sempre bem cortados e bem penteados. Todos o chamavam de Seu Eduardo. Seu Eduardo, o educadíssimo, o boníssimo, o seriíssimo, o gentilíssimo. Era solteirão. Vivia com duas irmãs mais velhas, também solteiras. Uma delas, ao que me lembre, tinha o nome de Isabel e falava baixinho, mas isto não vem ao caso. Um dia - pum! - o escândalo. Todos soubemos que a mãe de um garoto das redondezas – Lelo era o apelido dele – havia feito um escarcéu dos diabos, diante do tal casarão, e, pasme o mundo!, aplicado violentas cintadas nas pernas do educadíssimo, boníssimo, seriíssimo e gentilíssimo Seu Eduardo. Lembro-me de que, por aqueles dias, vovô me colocou sentado sobre o tampo de sua escrivaninha, para perguntar, com artificial suavidade, se eu havia entrado na casa do tal homem, se ele alguma vez colocara suas mãos em mim, se fizera alguma coisa assim ou assado. Eu disse que não. Nunca, nunquinha. Ouvi vovó comentar: "Pobre gente! Foram todos para a fazenda, em Queluz... aposto que se mudarão daqui. Vizinhos de tantos anos..." Lelo, faltou dizer, era um menino bonito, mimado, esperto e safado. Gostava de abaixar as calças, mostrar a bunda, o cuzinho rosado, e vivia dizendo que, quando estavam sozinhos em casa, ele e o pai faziam coisas muito gostosas. O pai de Lelo, naturalmente, era um homem educadíssimo, boníssimo, seriíssimo, gentilíssimo. Meus avós muito se agradavam dele. Chamava-se Hélio, ou Heitor, ou Elias, já não me lembro mais.
Escrito por Dennis D. : 06h34

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