Vingança / Dennis D.
Aconteceu no mês das ventanias, numa noite de lua nova, em hora tardia e sonolenta. Aconteceu no bairro Jardim Sabará, na rua Tenente Saldanha Pinho, número cento e dez. Luisinha ouviu aquele toquezinho da campainha. Um toquezinho breve, carícia de asa de mariposa, um resvalar de dedo mindinho, toque de gente fina, gente que vive com receio de incomodar. Luisinha perguntou-se: “Terá sido mesmo a campainha ou apenas uma impressão?” Logo acima da porta, na bandeira de vidros foscos, dançavam as sombra dos galhos secos da figueira-da-índia – acenos nervosos dos braços, das mãos e dos dedos de um esqueleto. “É você, Anna Eulália? Responda logo, senão eu não abro a porta!” Uma voz abafada confirmou: “Sim, sou eu. Que coisa! Pode abrir a porta, que o vento está gelado!” “Ah, pensa que sou boba? Um vozeirão grosso assim e ainda diz que é Anna Eulália? Vamos, diga quem está aí! É você, Diolando? Chega de brincadeira sem graça!” “Claro que sou eu, o Diolando. Não seja medrosa e abra logo esta porta.” “Se é o Diolando mesmo... diga aí qual é o nome da cachorra salsicha da filha da Dona Imaculada.” “Parva...” “Errou! O nome da cachorrinha é Puppy, com dois pês e ípsilon.” (Silêncio) (Silêncio) (Mais silêncio) Luisinha girou a chave e abriu uma frestinha da porta. Deu para enxergar a mão enorme a segurar uma garrafinha destampada. Mais não deu para ver, porque - num segundo - a mão saltou e o jorro do ácido sulfúrico lhe atingiu os olhos. Eram verdes, do tom dos figos de compota.
Escrito por Dennis D. : 13h41

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