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Bom-dia, Manolo / Dennis D.
Bom-dia, Manolo.
A nossa amizade é meu vietnãzinho. Quase sempre, ao ler seus e-mails sarapintados de absurdos e de impertinências, eu me sinto na pequenina Phonsavan bombardeada. Por que ainda lhe dou atenção, qualquer atenção, Manolo? Por quê? As bobagens que você pensa não precisariam ser ditas ou escritas, ou enviadas a mim. Seria tão mais justo se elas - todas elas - excitadas e incansáveis que são, dançassem apenas em sua própria mente... Ah!, sonho vão este de pretender que brote em você, Manolo, qualquer lucidez ou compaixão. Qual! Antes que eu me esqueça, Manolo, não me escreva nunca mais a palavrinha ‘xampu’, assim abrasileirada pelos gramáticos nacionalistas. Há limites, há limites para tudo, Manolo! Por que acha você que não se vê em rótulo algum a palavrinha ‘xampu’, e sim ‘shampoo’, como julgo ser o mais apropriado? Xampu - admita - é uma grafia que nos lembra algo tosco e exótico como um deus tupi da chuva grossa. “Mim pede deus Xampu mandar chuva de pingão! Terra seca, manda chuva grossa, deus Xampu!” Ou ainda: “Certo dia, o caboclo Guaracy viu o céu todo fechado em nuvens negras e, apavorado, pediu a proteção do deus Xampu...” Bah! Impossível lavar os cabelos com esse tal xampu, Manolo, a menos que você seja um acadêmico de letras, desses que seguem incondicionalmente o besteirol ufano-nacionalista de seus professorezinhos. O vício do ufano-nacionalismo é um estágio primitivo do desenvolvimento intelectual. Todo ufano-nacionalismo é restritivo, mesquinho, risível. Nacionalismo, em si, já é uma coisa tola, porquanto se baseia em ilusões de grandeza. Xampu com “xis” e “u”, pois sim! Insistirá você, aposto: “Mas é o certo! Mas é o certo!” Digo-lhe eu: nem todo ‘certo’ convém a uma pessoa adulta, bem-educada e que cultive o livre-discernimento. Anote, Manolo, anote aí. Às favas com o seu maldito xampu, Manolo! Sim, reconheço que se o produto for feito de jojoba a grafia tupinóide pode ser tolerada. Não existindo adição de jojoba, de babosa ou de qualquer outra baba-gosma extraída da flora brasileira, o seu xampu com “xis” e “u’ é algo insuportável. Manolo, por que eu ainda insisto em ler os seus e-mails? Sou uma alma que vive sob constante tortura. Estou aprisionado no infinite loop de uma piada grotesca. Sim, Manolo, o meu país se tornou uma piada grotesca. Não aprofunde ainda mais a minha angústia de viver. Dê-me alguns poucos dias de paz. Nada de e-mails, eu rogo, eu suplico, Manolito.
Escrito por Dennis D. : 12h07

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Tia Lory / Dennis D.
Com o passar dos anos, maltratar tia Lory tornou-se um esporte familiar. Pedro, o sobrinho-neto, não tinha tempo para a mulher, Laura, que não tinha tempo para o marido, nem tempo para os filhos, Afonsinho, Clara, Nina e Angélica, que não tinham tempo senão para si mesmos e suas irrelevâncias diárias. Assim, tia Lory passou a ser a cruz de todos, o estorvo compartilhado, o constrangimento, a penitência de cada dia. Numa segunda-feira, Laura entrou na cozinha e ordenou: "Nada de almoço para a velha! Até o domingo que vem, sirvam-lhe apenas o caldo da tarde e o copinho de leite, na hora da novela. Nada de doces também, e que ela não se aproxime da fruteira. Nem um baguinho de uva! São ordens médicas, entenderam bem?" Não eram ordens médicas; era um novo castigo. Na tarde anterior, quando Laura e as amigas conversavam à beira da piscina, tia Lory, mal vestida e despenteada, veio se achegando e assentou-se numa poltrona de junco trançado. Foi isso, nada mais. Os empregados fizeram cumprir a sentença. Perto do final de janeiro, numa manhã qualquer, tia Lory desceu as escadas, olhou para todos, bateu palmas a pedir atenção e fez o seu anúncio: "Estou grávida. Serei mamãe até o final de julho." Gargalhadas. Em julho, dia 30, tia Lory morreu. Ao retirar o corpo da cama estreita, o rapaz do serviço funerário notou a sombra estranha entre os lençóis, uma espécie de névoa cinzenta, uma mancha de dois palmos, que parecia ter pernas e braços a balançar. O rapaz também escutou um silvo, como o assovio de uma chaleira a ferver, algo contínuo, distante, lamentoso, muito triste de se ouvir. Tia Lory foi sepultada em segredo, sem lágrimas, sem flores, num caixão do tipo mais ordinário. A sombra estranha continuou a viver naquela casa. No ano seguinte, deu os seus primeiros passos e abandonou o quartinho da falecida. Laura foi a primeira a escutar a voz fininha, abafada, que parecia reclamar atenção." Logo depois, vieram as doenças, os acidentes, as mortes...
Escrito por Dennis D. : 08h28

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