Assombro / Dennis D.
Às três horas da manhã, uma negra nua, de seios enormes e de bunda empinada, foi vista a descer a Rua do Orvalho. A negra nua caminhava devagarinho, expelindo - pelos seus furos todos - dezenas, centenas de vaga-lumes vivos. Seguia adiante, sempre adiante, e deixava atrás de si aqueles longos cordões de luzinhas verdes. Que coisa mais linda! Que coisa mais extraordinária! Quando alcançou o Largo da Cruz Torta, a negra nua foi atropelada por um caminhão do Laticínio Caburé. Morreu no instante do impacto. Nem sequer gemeu. Os vaga-lumes também caíram, todos eles mortos, alguns segundos depois. Se alguém os tivesse contado, descobriria que somavam mais de mil.
Escrito por Dennis D. : 22h34

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Loulou & Chouchou / Dennis D.
Loulou falava compulsivamente – um horror. Tinhas dentes enormes e sua saliva espumava, branquinha, branquinha, nos cantos da boca. A gente olhava aquilo e fingia não ver, mas as espuminhas iam crescendo e punham-se a oscilar num cai-não-cai desesperador. Loulou ria das próprias piadas e fungava, comovida, no entremeio de suas narrativas supostamente tocantes. Era uma atriz, a desgraçada; uma atriz que representava mais para si mesma do que para a platéia. Tudo em Loulou se mostrava excessivo: perfume demais, voz aguda demais, gestos demais, roupas exóticas demais, entusiasmo demais, melancolia demais... nada de menos, nada no ponto certo. É terrível estar ao lado de uma mulher transbordante, que inunda e afoga tudo ao seu redor. Chouchou era o extremo oposto de Loulou. Tudo que em Loulou sobrava... em Chouchou faltava. A começar do baixíssimo volume da voz e a terminar na inexistência quase absoluta de gestos a acompanhar as frases murmuradas. Nem os globos oculares de Chouchou pareciam se mover, quando ela dialogava com alguém. Não foram poucos os que, num primeiro contato, julgaram estar diante de uma cega, tal a imobilidade daquele olhar. Era uma morta-viva, aquela mulherzinha. Numa tarde de abril, dessas tardes modorrentas em que jamais se pensa em ocorrências extraordinárias, Loulou e Chouchou tomaram o mesmo elevador, no vigésimo primeiro andar de um edifício do Centro Comercial. Apenas elas duas, mais ninguém. Elas duas e a musiquinha suave, quase inaudível, soprando seus la-ri-lás monótonos. Vinte segundos depois - escuridão - o elevador parou. A luz de emergência imediatamente verteu sua claridade fraca e amarelada. Loulou desandou a falar e a gesticular, enquanto Chouchou permanecia calada e imóvel como a múmia de Ramsés II. Um demônio capcioso reunira, ali na mesma caixinha suspensa, duas mulheres abomináveis. O elevador só tornou a funcionar quatro horas depois. Quando a porta se abriu, Chouchou foi a primeira a sair. A morta-viva, a múmia egípcia, agora falava em voz altíssima, chorava e ria ao mesmo tempo. Suas mãos descreviam frenéticas elipses no ar. Loulou, qual um espectro vagaroso e solene, deslizou para fora da cabine. Não disse palavra alguma. Seu olhar parecia fixo como o olhar de uma cega. Que transformação! Sem pressa, Loulou pôs-se a retirar de si todas as extravagantes bijuterias, as muitas pulseiras, os anéis com pedras enormes, os brincos e os colares. Cada peça era depositada sobre um banco do saguão e prontamente apanhada pelas mãos ávidas de Chouchou. Aconteceu assim.
Escrito por Dennis D. : 14h14

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