Sopro incidental / Dennis D.
A barriga do relógio da sala está cheia de rosas secas e de lagartas roxas. É claro que o pêndulo não se move. Como poderia? No chão que eu piso há um sem-fim de frases esparramadas, umas enroscadas nas outras, frases cruéis que me foram ditas no decorrer de todos estes anos. E há também a poeira fininha de todos os vidros que eu quebrei – copos, taças, espelhos e lentes de óculos. E há sal, pelo chão, e há uma fita de veludo negro, desprendida dos cabelos loiros de uma menina chamada Arlette, minha primeira namorada. Porque não me constrange fazer absurdos, apanho o telefone e ligo para uma casa que já vendi, ligo para um tempo que não mais existe. Quem atende a chamada é minha mãe, morta há quase quatro anos. Ela diz, com voz musical: "Hallo!" Eu digo: "Mãe, vem me buscar!" Ela diz: "Calma." – e faz um som baixinho, que parece príncipio de riso ou princípio de choro, mas também pode ser um suspiro, um muxoxo, um sopro incidental. Eu tremo, não digo nada, fico a ouvir, mas não há nada para ouvir. Tento recolocar o fone no gancho. O fone não se encaixa direito, resvala, escorrega. Eu torno a colocar o fone no ouvido. Agora, escuto o barulho do mar. Não pode ser o mar, eu sei, mas é lindo.
Escrito por Dennis D. : 09h21

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Cabralito, que beleza! / Dennis D.
 Querido afilhado/sobrinho Renato Cabral, poeta, contista, ator, cineasta, diretor, roteirista, fogo-fátuo incontrolável, ruminante de sonhos, assombração urbana, criador de repolhos falantes, menino que salta e assusta, saci branco de duas pernas, braço do vento, inventor de aventuras, monge pagão, exorcista leigo, novaiorquino mineiro, cabecinha mágica, você nasceu mesmo destinado às artes, destinado a todas as artes, seu sem-vergonha talentoso!
Meus leitores, meus amigos, leiam o livro de contos "Míseros Platôs" e assistam ao poético e instigante filme "Entre os Dedos" - obras de Renato Cabral. Tudo pode ser encontrado aqui: O RUMINANTE.
Escrito por Dennis D. : 16h40

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Por favor, enfiem as pombinhas brancas no cu / Dennis D.
A linda e indefesa criança foi arrastada e morta - um crime horrendo, pavoroso, capaz de eriçar os pêlos de arame do próprio Cão do Inferno. Agora, já começam a surgir aquelas mesmíssimas manifestações que costumam suceder cada crime hediondo divulgado nos jornais e na televisão: as marchas - as tais marchas de pessoas vestidas de branco, carregando rosinhas brancas, balões brancos, pombas brancas, entoando pedidos paz. Querem pedir paz a quem? (eu só peço paz a Deus, por meio de minha consciência limpa) A quem querem sensibilizar esses marchadores? Aos monstros assassinos que não se apiedam de uma frágil criança? Aos monstros que não hesitam em estourar os miolos de qualquer criatura viva que lhes cruze o maldito caminho? Então é a eles que se pretende pedir paz? Ou será que desejam pedir paz aos políticos brasileiros, esses leprosos morais, essa gente sem consciência e sem honra, esses porcos esfaimados e arrogantes que só pensam em roubar, enriquecer e continuar desfrutando privilégios sem fim? Ou querem sensibilizar a mim, ou a pessoas honestas como eu, que estão mais do que conscientes do inferno em que se transformou o seu próprio país. Marcham para sensibilizar a quem? Soltam pombinhas brancas e balões brancos para enternecer quais corações de pedra? Querem iluminar quais almas trevosas? Querem adoçar quais potes de fel? Vão todos a puta que os pariu, gente de merda, seus filhos da puta, sociedade arreganhada e futucada, que aceita ser invadida nas suas entranhas, cuspida na cara, enrabada em pé, e ainda ri, ainda bate pandeirinhos nas avenidas, ainda vai atrás dos trios elétricos, pulando feito bonequinhos de mola, patético zoológico de animais nascidos para o batuque, para as cervejas e para as putarias públicas e privadas. Vão todos a puta que os pariu, gente sem coluna vertebral. Vão tomar no meio do cu, seu bando de arrombados, vão fazer teatro no palco largo do cu da mãe de vocês! E ainda essa gente têm o desplante de falar mal dos argentinos, esses brasileiros assholes moles! Ao menos, os argentinos têm brios, têm vergonha na cara – saem às ruas batendo suas panelas, gritando, urrando, exigindo respeito. Enquanto vocês, seus levianos e cegos, reelegem políticos safados. Carnaval pra vocês! Muito Carnaval! Entupam-se de Carnaval! É só isso que lhes interessa, não é? Bundas, muita bundas a rebolar! E que os marchadores pacifistas enfiem suas pombinhas brancas nos respectivos cus. Esse país só vai mudar quando o povo for, enfim, abençoado com um sentimento da maior utilidade - cujo nome é indignação. Mas indignação é coisa que o brasileiro não sente. E se a sente, esconde muito bem ou não sabe o que fazer com ela. A linda criança morreu, seus assholes largos e moles! A linda criança morreu do pior modo, e ninguém, ninguém mesmo vai evitar que outras tantas morram da mesma maneira vil. Ninguém vai evitar, porque o povo já vendeu sua decência por trinta dinheiros e agora está ocupado com o maldito Carnaval. Divirtam-se, mortos-vivos! Fechem os olhos e abram o rabo! Já nem dói tanto, não é mesmo, gente larga? ... Sou brasileiro, trabalho e sempre tabalhei honestamente, pago e sempre paguei meus impostos, e ainda me resta o direito de opinar.
NOTICIADO NO PORTAL TERRA (10/2/07):
Bloco carnavalesco homenageia menino arrastado
Ernani Alves Direto do Rio de Janeiro
Apesar do clima de festa, o início do desfile do tradicional bloco carioca "Simpatia é Quase Amor" foi marcado, na tarde deste sábado, por uma homenagem ao menino João Hélio Fernandes, 6 anos, morto na última quarta-feira após ser arrastado em um carro por bandidos, no subúrbio do Rio de Janeiro. Os foliões presentes na concentração do evento, na rua Teixeira de Melo, em Ipanema, fizeram um minuto de silêncio a pedido dos organizadores da festa.
Após o momento de reflexão, cariocas entraram no ritmo do samba para tentar esquecer o clima de violência vivido por todos os moradores da cidade"
A gente lê e não acredita no que está lendo! Como é possível? Eles entraram no ritmo do samba para tentar esquecer o clima de violência. Esses animais merecem que se lhes desabe sobre a cabeça um castigo bíblico. O despudor e a insensibilidade desse povo já ultrapassou todos os limites. Da Caixa de Comentários...
Escrito por Dennis D. : 20h17

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