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O Limbo das Almas das Flores / Dennis D.
Glóbulos aromáticos elevam-se das corolas, entre estames aprumados. Gravitam, leves e vagos, sobre os gomos entreabertos nas floradas. As açucenas-do-campo, claras e concedidas, vão misturando licores em seus nichos perfumados. Suspiram os amores-perfeitos e cravos, os altivos lírios-de-espanha, as peôneas-da-china, as malvas meninas debruçadas. Minúsculos espíritos levitam sobre aldeias orgânicas de arquiteturas fugazes. Lá estão as cravinas e madressilvas, cinerárias enlutadas, gerânios e goivos... lilazes meninos consagrados. Dos cálices tombados, vazios e assinalados pela morte, desprendem-se as almas das flores, a caminho do limbo que as aguarda. Vão-se as verbenas, as vandas, as tulipas. Vão-se os narcisos narcotizados, os gladíolos encantados, os desolados girassóis. Vão-se as angélicas, as anêmonas e ancólias. Vão-se as macelas amarelas, as violetas de éter, a flor-de-sangue, a flor-da-noite, a flor-de-lis. E deitam-se em seus leitos invernais, num lapso do espaço inconcebível... entre a flor morta e a semente adormecida.
Escrito por Dennis D. : 01h39

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Noca Coroca / Dennis D.
Dona Noca Coroca, oitenta e oito anos confessos, mora num sobradinho amarelo, na esquina da Rua da Tapioca com a Avenida das Docas. É uma velhinha simpática, baixinha, franzina, de voz mansa e de gestos delicados. Mora sozinha, ou quase, pois vive cercada de pardais, de pombos, de canários, de sabiás, de pintasilgos e de muitas outras espécies de passarinhos. Não, não os cria em gaiolas ou em viveiros aramados de jardim — confinamentos estes que acha abomináveis — quer vê-los todos bem livres, entrando e saindo da casa, ciscando no chão da cozinha, pousando nos trilhos das cortinas, construindo ninhos nos velhos lustres e nas prateleiras altas. É claro que a casa de Dona Noca Coroca tem um cheirinho um tanto desagradável, mas ela até que se esforça na faxina. Não fosse o peso da idade... Quando encontra um passarinho morto, Dona Noca lhe oferece um enterro decente, cristão, com reza ao pé da covinha e cruz de palitos de sorvete. Se a avezinha falecida for bonita — um canarinho, um beija-flor, por exemplo — ela a coloca dentro de uma caixinha de papelão e leva para ser empalhada. Empalhar esses bichinhos custa uma verdadeira fortuna, mas o empalhador, no caso, é Seu Aristodemus Braga, um velho amigo dos bons tempos. Ele faz o que faz por amor à arte, não por dinheiro. Uma vez empalhado, um passarinho pode servir a muitas finalidades: adornar um chapéu de palha, ser colocado no presépio, ou ficar sobre o televisor, junto aos outros vinte e cinco que lá estão. Ultimamente, Dona Noca Coroca anda perdendo os cabelos (mazelas da velhice, disse-lhe a vizinha, que é prima da cunhada do enteado da sobrinha de um médico famoso). Por isso, ela resolveu usar uns chapeuzinhos engraçados, feitos (por ela mesma) com muito capricho e inventividade. O capricho está nas costuras bem feitas, nos acabamentos, na combinação das cores... A inventividade fica por conta de uma certa idéia que brotou na cabecinha de Dona Noca: montar os chapéus com pequenos bolsos, bem rasos, depois encher essas cavidades com alpiste dos bons e sair por aí. ... E o que aconteceu? Aconteceu o óbvio: por onde Dona Noca passava, os passarinhos menores e as pombinhas vinham buscar os grãos crocantes, de miolo macio, armazenados nos bolsinhos do inusitado chapéu. E como os bichinhos se fartavam de alpiste! Um espanto! A coisa chamou a atenção do povo, e de tal maneira, que até acabaram fazendo uma reportagem para a televisão. De um dia para o outro, o País inteiro ficou conhecendo Dona Noca Coroca, "A Vovó da Passarinhada"! Como uma coisa sempre leva à outra — e esse negócio de fama é difícil de controlar — em dois tempos Dona Noca virou uma dessas celebridades internacionais. Foram tantas as entrevistas, tantos os pedidos para alavancar campanhas em favor das aves, que a Vovó da Passarinhada acabou convidada a ministrar palestras em universidades da França. No Vale do Loire, Dona Noca provou dos queijos mais saborosos, bebeu dos vinhos mais caros, tomou gosto pela boa mesa, pela boa taça, pelas perdições da gula, enfim. Em poucas semanas chegou a ganhar mais de dez quilos. Porém, a vida é useira e vezeira em nos surpreender com suas cruéis ironias. Quando faltavam apenas algumas horas para Dona Noca embarcar de volta ao Brasil, não é que ela pisa numa titica de pomba, lá na Place Vendôme, escorrega, bate a cabeça no chão e perde os sentidos? Hospitalizada, não chegou a voltar a si. Morreu ao fim de sete dias, como um passarinho: serena, suavemente, sem dar um pio.
(conto escrito em 2003)
Escrito por Dennis D. : 01h13

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Quem fez o convite, hein? / Dennis D.
Foi muito engraçado assistir aos inúmeros protestos anti-Bush, ontem e hoje. Ri bastante ao ouvir gente que nem conhece geografia elementar, muito menos política, a defender ferozmente a Venezuela de Chávez, o Irã, Cuba de Fidel, o Iraque de Saddan Hussein. Gente berrando e exigindo que os EUA sejam elimiados do mapa terrestre. Ha! Ha! Ha! E por que não protestam contra quem fez o convite a Bush? Foi o Lulla que convidou Bush - será que eles sabem? Convidou-o formalmente, com todos os trique-triques oficiais. Bush não está aqui de metido, não! Protestem contra Lulla, ora, ora. Queimem bonecos de Lulla, criaturas! Não querem, não? Ah... já entendi. Então me deixem continuar a rir. Ha! Ha! Ha! Ho! Ho! Ho! Hi! Hi! Hi!
Escrito por Dennis D. : 13h25

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Meu Sonho Mais Feliz / Dennis D.
 Foram dois anos de sucesso. A loja se chamava "Meu Sonho Mais Feliz" e ficava num casarão rosa pálido, cujas paredes da fachada apoiavam treliças brancas cobertas de heras e de fúcsias. Não havia filiais. A fama do negócio, comentavam todos, devia-se ao bom gosto e ao perfeccionismo de Maria Eudóxia Werneck Alvim, a proprietária. Cada boneca, cada bebezinho vendido no "Meu Sonho Mais Feliz" custava quatrocentos dólares em média. Se a roupinha fosse exclusiva, com bordados ingleses, e se o bebê viesse com brinquinhos de ouro e pérolas verdadeiras, o preço poderia ultrapassar os oitocentos dólares. Ainda assim, as encomendas eram tantas que Maria Eudóxia criou uma lista de espera; trinta a noventa dias, conforme a peça escolhida. "Meu Sonho Mais Feliz" fechou as portas pouco antes do Natal de 1991. Na primeira semana daquele dezembro, um diplomata norte-americano presenteou sua filhinha enferma com um dos mais caros bebês fabricados por Maria Eudóxia Werneck Alvim.
A menina encantou-se com a nova 'filhinha'. Levou-a consigo para o interior do cilindro da máquina de tomografia. E foi então que se descobriu, com todos os impressionantes detalhes, o pequeno esqueleto humano que existia dentro do brinquedo.
Escrito por Dennis D. : 12h59

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Annia (da série 'As Bonequinhas Infelizes') / Dennis D.
"Enquanto você repousa neste famoso hotel, Annia" – disse Rebeca à bonequinha desnuda –, "eu cuidarei dos preparativos para o casamento. Não se preocupe com nada, nada; apenas relaxe e sonhe com Sidney Klein, o seu único e eterno amor. Mais uma coisa: este vestidinho de noiva precisa ser passado a ferro, Annia, veja só como ele está amassado! Quem sabe eu aplique algumas pérolas aqui na barra, outras aqui no decote... o que acha da idéia. Annia?" A bonequinha-noiva respondeu que confiava no bom-gosto de Rebeca. Então a porta do guarda-roupa foi fechada muito delicadamente. Rebeca encheu de água uma pequena vasilha, nela derramou todo o conteúdo de um vidro de tinta preta. Depois, mergulhou o vestidinho de cetim e tule. Por fim, mergulhou também o véu e o gracioso buquê de rosas e lisiantos. No pequeno diadema de Annie havia doze pedrinhas de cristal, que foram removidas e substituídas por doze carunchos de feijão. O noivo, Sidney Klein, até então não passara um nome inventado por Rebeca, mas agora precisava ganhar um rosto e um corpo. O corpo foi bem fácil de achar: aquele gengibre monstruoso, que parecia ter dois bracinhos e duas perninhas atrofiados. O rosto veio com a cabeça arrancada de um macaco de molas. Sidney Klein ganhara vida e voz. Voz de macaco, que só fazia "Iiiiic! Iiiiic! Iiiiic!" Rebeca abriu suavemente a porta do guarda-roupa. "Annia, chega de repouso! Vamos, menina, mexa-se! É hora de se vestir e entrar na igreja. O noivo já está nervoso com o seu atraso. A cerimônia será rápida, porque Sidney Klein quer estar a sós com a mulher de sua vida. Mais tarde você entenderá o que isso significa, minha adorável Annia." A bonequinha-noiva sorriu. No fogão, pousado sobre um círculo de chamas azuis, um espeto de ferro incandescia. Ele seria o ponto alto da Noite de Núpcias.
Escrito por Dennis D. : 18h45

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Lavínia, Maurizzia e Savanah (da série 'As Bonequinhas Infelizes') / Dennis D.
Rebeca arrancou tufos e mais tufos dos cabelos ruivos da boneca Lavínia. Foi brutal, mas necessário, a fim de que Lavínia exibisse realisticamente os efeitos da quimioterapia. Pobre e desgraçada Lavínia. Na semana anterior, ela já havia sofrido uma delicada cirurgia cerebral, durante a qual rompeu-se um arame fino e, como resultado, os movimentos dos seus belos olhos azuis entraram em colapso. Quando o olho esquerdo se abria, a pálpebra do olho direito desabava. Pálpebra suja, quase sem cílios.
A boneca foi então ligada aos aparelhos de monitoramento da Unidade de Terapia Intensiva. Rebeca colocou uma sonda para colher a urina da enferma, mas sabia que seus invisíveis rins funcionavam precariamente.
Era preciso avisar as filhas de Lavínia, Maurizzia e Savanah , que estavam orando (ou fingiam orar) na capelinha do hospital. Rebeca segurou Maurizzia e Savanah com força e disse-lhes: “Sinto muito, fizemos todo o possível, mas Dona Lavínia não respondeu bem aos procedimentos. Ela tem poucas horas de vida.”
Maurizzia e Savanah choraram muito, mas Rebeca lhes prometeu dois novos vestidinhos e duas tatuagens de beija-flor. “Verdade? Quando? Quando?” – quiseram saber as filhas da moribunda. Rebeca explicou que os presentes chegariam após o funeral.
Lavínia foi declarada morta poucos minutos depois do jantar. Rebeca colocou a defunta na prateleira mais baixa do freezer, entre duas embalagens de lazanha e quatro pacotes contendo tortas de frango com requeijão cremoso.
No dia seguinte, quando a mãe de Rebeca saísse para a aula de hidroginástica, seria realizado o rito fúnebre ecumênico, seguido da cremação.
Não se deve deixar tudo para a última hora. Rebeca resolveu examinar as assadeiras de alumínio. Separou a maior dentre as três revestidas com teflon.
Horas e horas de sono agitado, vários sonhos confusos. Rebeca abriu os olhos às três e meia da madrugada. Veio-lhe o desespero. Não saberia viver sem Lavínia. A boneca precisava ressuscitar. Catalepsia? Isso mesmo! Correu à cozinha e abriu o frezzer.
Tarde demais. Faltara luz e Lavínia havia sido devorada pelos vermes, milhares deles, de todas as cores, de todos os tamanhos.
Rebeca pensou naquelas duas fúteis, Maurizzia e Savanah. Elas só queriam saber de presentes. Egoístas! Insensíveis! Vagabundas! Mereciam ser castigadas de modo exemplar. Seriam internadas logo que clareasse o dia. Trombose Negra em todos os membros. Sofreriam terríveis amputações.
(Conto de 15/02/05)
Escrito por Dennis D. : 21h49

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