Saudade / Dennis D.
Mais um 16 de março chegou. Faz quatro anos que Alex partiu. Foi velejar em outros mares. ... Ei, Alex, pode me ouvir? Você se lembra daquelas primeiras guerras blógicas? Lembra de como nos divertimos nas violentas batalhas de quase todos os dias? Rimos bastante, foi um tempo maravilhoso aquele. Alex, agora quero falar a sério, preste atenção! Pare de mexer com as anjas, homem! Quero lhe dizer que você nunca será esquecido. Um dia, espero, nos encontraremos outra vez. Você terá muitas novas histórias a contar, aposto. Hoje, nas Matinas, os frades chapeletos vão orar por você, e vão fazer soar o grande sino rachado daquele monastério maluco. Você merece, você merece! Aqui, a saudade é grande, você sabe...

(Cris, obrigado pelo carinho. Hoje estamos todos unidos, a relembrar os melhores momentos com Alex. Receba meu beijo.)
Escrito por Dennis D. : 22h53

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Cinderolla / Dennis D.
No inverno de 1926, o velho Ludwig Von Müller, um professor de harpa à beira da bancarrota, reuniu o pouco dinheiro que lhe restara e viajou para a pequena cidade de Innsbruck, no coração dos Alpes Austríacos. O velho mestre pretendia subir, pela derradeira vez, ao ponto mais alto da Montanha Patscherkofel, local onde - dos sete aos treze anos - ele costumava manter seriíssimas conversas anuais com seu amoroso pai. Nessas conversas, Ludwig falava de suas expectativas relacionadas ao futuro, falava do sonho de vir a tornar-se um músico de sucesso mundial, enquanto o pai lhe transmitia ensinamentos de natureza prática, geralmente ligados ao que ele próprio chamava de "A Grande Arte do Comedimento Econômico". Nenhum desses ensinamentos de papai Müller, todavia, livrou Ludwig de um futuro medíocre, dolorosamente humilhante, que acabou se caracterizando pelo acúmulo de dividas e pelo exercício da "Grande Arte de Despistar Credores". Nesses dias crepusculares, quando o peso da velhice e do fracasso já o oprimia de modo insuportável, o derradeiro desejo de Ludwig Von Müller era fazer das azuladas neves de Patscherkofel o seu leito de morte. No bolso do puído casaco negro, o velho professor carregava um frasquinho contendo uma mistura de kirsch com cianeto de potássio. E assim, com tais planos na cabeça, chegou ao topo da bela montanha nevada. ... Por essa mesma época, o jovem Friedrich Henkel voltava a Patscherkofel, para deixar a maldita bolsa de pele de cabra no mesmo lugar onde a encontrara, meses atrás. Dentro da bolsa, havia o antiqüíssimo rolo de pergaminho rosado, o qual continha a verdadeira história da princesa Cinderolla, relato este registrado pela pena de Antão Di Bursia, um suposto beneditino excomungado. O texto do tal pergaminho datado do século XVII era todo escrito em latim, mas - de acordo com algumas anotações em alemão, que o acompanhavam - Friedrich soube que o notável escritor Hans Christian Andersen dera-se ao trabalho de traduzir toda a história de Bursia. Em uma das notas, Andersen afirmava que aquele pergaminho rosado continha um amontoado de mentiras, insolências e perversidades. Em nome de todas as crianças do mundo, e principalmente em nome daquelas que ainda estavam por nascer, o notável contista suplicava que o pergaminho fosse destruído ou trancado em algum cofre de paredes grossas. Mas, como podemos constatar, o velho texto continuava intacto. Desde o dia em que encontrara a referida bolsa de pele de cabra, Friedrich vivia atormentado pelo peso de sua consciência, sem saber o que fazer com seu achado. Destruir o pergaminho não lhe parecera correto; torná-lo público talvez gerasse uma sucessão de conseqüências imprevisíveis. Sim, a única saída era recolocar a bolsa ali mesmo, no vão daquelas duas pedras, local exato de onde fora tirada. Desse modo, Friedrich livrou-se do incômodo fardo e deixou o alto da montanha. Quando estava para iniciar a descida, cruzou com um homem velho, de barbas brancas, que o saudou com um desanimado "Guten Morgen", enquanto segurava a gola virada de seu sobretudo negro e puído. ... Ludwig contemplou a paisagem branca. Alguns flocos de neve dançavam à frente dos seus olhos. Lembrou-se do querido pai, lembrou-se também da primeira vez em que subira ao alto daquela montanha... Os dedos nodosos tocaram o frasco com o líquido mortífero... Mas o que seria aquela mancha marrom, entre duas pedras –perguntou-se. Oh, é uma bolsa muito velha, toda feita em pele de cabra... E assim, o insólito achado da bolsa alterou o curso final da vida de Ludwig Von Müller. O pergaminho rosado foi vendido ao maior colecionador de livros raros da Áustria, homem este que se mostrou fascinado com a originalidade do documento, isso sem mencionar o seu imenso valor histórico. Uma grande quantidade de dinheiro aportou aos cofres do idoso professor de harpa. Não só as dívidas foram totalmente saldadas, como foi possível a Ludwig comprar um velho castelo e transformá-lo na maior escola de música de toda a Europa. À noite, junto à lareira, sentado em sua confortável poltrona, o velho Ludwig deliciava-se com a leitura da narrativa de Antão Di Bursia, narrativa esta que, secretamente, copiara e mandara traduzir (apenas para o seu deleite particular). Os olhos do velho professor pousaram nas primeiras frases do décimo capítulo... "Alegre e ruidosa, ainda seguia seu curso a magnífica festa de casamento, quando o príncipe Horace e a princesinha Cinderolla deram-se as mãos e subiram a grande escadaria que levava à ala dos dormitórios. Chegando aos aposentos nupciais, a encantadora noiva dispensou a presença das damas que ali se encontravam. O príncipe fez o mesmo com os dois secretários e os três valetes que o acompanhavam. As portas foram então fechadas e o casal pôde entregar-se ao prazer das primeiras carícias realmente íntimas. Entre beijos, gemidos, sussurros e suspiros, puseram-se a desvestir os trajes elegantes, livrando-se do peso das jóias, pondo-se completamente nus. Antes de retirar o último saiote, Cinderolla soprou as chamas dos candelabros. Na escuridão do aposento, os jogos de amor se tornaram cada vez mais ousados, a excitação cresceu, mas o príncipe Horace tranqüilizou sua amada, jurando que seria muitíssimo delicado no momento da defloração. Em retribuição a tal jura, a pequenina mão de Cinderolla agarrou o membro do marido e guiou-o à abertura da grutinha estreita e virginal. Com uma única e certeira estocada, o himen foi rompido. Apenas duas gotinhas de sangue salpicaram os alvos lençóis. Cinderolla gemeu baixinho. Que encanto! Embriagado de amor, Horace levou sua mão até o vão das pernas de Cinderolla e, num gesto brusco, recolheu-a. Saltou da cama e correu a entreabrir as portas do dormitório. Das mãos do pequeno valete, recebeu um candelabro com sete velas acesas. Aproximou-se lentamente do leito, onde Cinderolla, nua e encolhida, só fazia tremer. Horace agarrou-a pelos pés e abriu-lhe as pernas. Naquele momento, descobriu que desposara um belíssimo hermafrodita! Então..." Ludwig deixou a leitura para depois. Não havia a menor pressa. Suas pálpebras desceram lentamente e ele adormeceu. Sonhou com a princesinha Cinderolla, despida, a pele alva e os cabelos muito dourados, dançando alegremente no topo da Montanha Patscherkofel. Enquando Cinderolla dançava, os flocos de neve também dançavam ao seu redor...
Escrito por Dennis D. : 14h14

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