Minha mãe foi morar em Oz / Dennis D.
Na madrugada de 25 de março de 2003, nove dias depois da morte de Alex, mamãe também partia. Minha mãe, assim como a menina do filme "O Mágico de Oz", chamava-se Dorothy. Talvez por isso, penso eu, "Somewhere Over The Rainbow" (de Harold Arlen e E.Y. Harburg) acabou sendo a sua canção preferida. Para mamãe, portanto, dedico esta minha interpretação de "Somewhere..."
Escrito por Dennis D. : 22h47

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Alaor / Dennis D.
Apartamento 123: casal de meia-idade e Mitze, a cadelinha poodle. "Alaor, você vai descer agora ou está esperando a Mitze urinar outra vez no tapete?" "Calma. Faltam cinco minutos para o filme terminar. Se está com tanta pressa, leve você mesma a cachorrinha." Dona Palmira desenvolvera a técnica de ofender sem pressa, no ritmo de quem recita a Epístola de São Paulo aos Efésios. E mais: cada palavra era pronunciada com clareza professoral. "Alaor, você é um calhorda. Um calhorda, Alaor. Está ouvindo bem, calhorda? Calhorda e inútil é o que você é, seu calhorda inútil. Calhorda. Calhorda, Alaor. Sempre foi um calhorda. Você nasceu calhorda e há de morrer calhorda. Calhorda e banana. Bananão. Você é um bananão, Alaor. Calhorda e bananão. Inútil. Calhorda inútil você é, Alaor. Banana. Zero à esquerda. Calhorda. Seu calhorda. Como você é calhorda, Alaor... Banana. Calhorda. Calhorda inútil. Calhorda é o que você é, Alaor. Banana. Bananão calhorda. Calhordão..." ... Consternado, o síndico se dirigia a um grupo de cinco senhoras: Foi ontem, sim, por volta das seis e quinze da tarde... O porteiro ouviu aquele barulhão. Horrível. Brutal. O corpo dela caiu bem naquele lado da rampa da garagem. A cachorrinha caiu perto. Foi muito triste, porque o bichinho custou a morrer, ficou tremendo um bom tempo. A Dona Palmira morreu na hora, e nem era para menos, pois veio de cabeça, veio direto lá do décimo quinto andar. Nem deve ter sentido nada. O frasco do limpa-vidros explodiu bem aqui, entre Dona Palmira e a cachorrinha. O pior mesmo foi contar a coisa toda ao Seu Alaor, coitado do homem, que nem havia percebido nada, pois estava com a televisão ligada, prestando atenção ao final de um filme. Ele, o Seu Alaor, contou que Dona Palmira, minutos antes, havia dito alguma coisa a respeito de manchas de gordura na vidraça. Deve ter resolvido limpar os vidro ela mesma, já que a faxineira deles só vem às quintas-feiras. A cachorrinha não dava sossego, era elétrica, e na certa pulou no parapeito e fez Dona Palmira perder o equilíbrio. As duas projetaram-se no espaço. Essas coisas acontecem em segundos. Deu muita pena de ver o estado de confusão mental em que mergulhou o Seu Alaor. Imaginem as senhoras que, quando um tenente da polícia lhe perguntou o nome completo, o pobre homem respondeu: 'Calhorda. Calhorda de Vasconcelos'."
Escrito por Dennis D. : 11h10

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