Dennis D.


Mercia Montenegro / Dennis D.

Acredite-me, Manolo: o mundo humano não é movido pela lógica e muito menos pelo bom senso; o mundo humano é movido, isto sim, pelo entrecruzamento das burrices com as psicopatologias.
Quer um exemplo, Manolito?
A veterana blogueira Mercia Montenegro, assim sem menos ou mais, publicou um post de vinte e cinco linhas e meia, no qual trazia a público o seu suposto drama pessoal: estaria ela gravemente enferma (uma terrível combinação de hanseníase com leucemia) e sua existência terrena não se estenderia além de uns poucos dias.
Uma semaninha depois do macabro anúncio, os consternados leitores de Mercia Montenegro encontraram o derradeiro post (ou aquilo que parecia ser um derradeiro post):

“Perdão, amorecos – Sorry! Sorry! - mas já não tenho forças para digitar com estes palitinhos... Calma, eu explico: ontem, perdi os dedos indicadores, que eram meus tesouros de tantas utilidades. Foram-se de mim, meus dedinhos amados, e cá estou eu a digitar com dois palitos de sorvete Kibon atados aos meus cotós, esquerdo e direito – numa amarração de trapos tão grotesca como aquela de que se servia o escultor Aleijadinho. Eu mesma fiz a amarração... fiz com meus dentes, os quais, confesso, estão caem-não-caem.
Meus abençoados médicos vindos de Cleveland, Dr. Seleno e Dr. Morris Aguillar, calculam que a minha existência humana findará em quatro, no máximo cinco horas. Estou parcialmente sedada, amorecos, ligada a 49 aparelhos estranhos... e minha visão principia a turvar-se. Tudo é triste. Despedidas são tristes. Tudo avança - veloz e inexoravelmente - para o THE END. 'Fim'... que palavrinha malvada, não, meus amorecos? Antes que eu mergulhe no profundíssimo abismo do silêncio e da escuridão, antes que eu seja abduzida pela Rosca do Samsara... um lembrete: não percam, no próximo dia 15 de abril, a exposição do meu querido Mariozinho Moréia Gomes, um dos mais geniais artistas plásticos do Planeta. Ele apresentará colagens feitas com suportes atléticos furtados em academias de halterofilismo. Hã? Mas... Mas... Que estranho! Oh! Lá na janela... O ar ficou tomado de centelhas azuis... Que lindo anjo estou a contemplar... e ele me acena amorosamente... ele deseja que eu vá até ele... Adeus, amorecos, é chegada a minha hora, mas... não sofram por mim, não. Vivam cada segundo com paixão e alegria. Nada de choro, nada de velas, nada de fita amarela... Em espírito eu retornarei... um dia... quem sabe? Adeus Marianinha Godói de Amaral Barros, minha amigona do peito... Adeus Adelaide Monteiro Mello Leite, irmãzinha de todas as horas! A... a... adeus, Carmosino Braga... eu... eu... Aquele vulto, o anjo lindo... Ibrahim Sued, é você mesmo? Quanta luz! Axvb tuyr... 8ubksvxxxx,Lj 2 5 ek fu * ¨ -- # = + ”

Passados quinze dias, Mercia Montenegro ressurgiu em seu blog.
“Voltei, amorecos”, escreveu a blogueira rediviva e pimpona.
E os amorecos enviaram dezenas de mensagens gentis: “Que bom que você voltou, Mercinha! Nós amamos você incondicionalmente, viu? Que alívio saber que não havia lepra nem havia leucemia, sua marota! Amo você ainda mais, depois de tantas mentiras emocionantes e bem contadas! Fazer o que você fez é pra quem pode, não pra quem quer, minha linda. Parabéns! Você é um ser de luz, Mercia!”

Compreendeu, Manolo? “Sendo a natureza humana como é...” – já dizia Miss Jane Marple em St. Mary Mead.
Não compreendeu nada, Manolo? Nada mesmo? Nada, nada, nada? Como é possível? Então me devolva aquele livrinho do Kierkegaard, seu puto. Você não tem a menor condição de compreender um único parágrafo daquele livrinho. Manolo, devolva-me também o outro livrinho, aquele do Quincey - "O Assassinato Como Uma das Belas-Artes".
Não, não quero mais conversar a respeito de amores incondicionais. É-me insuportável.
Você, também e principalmente, é-me insuportável, Manolo, seu filisteu envernizado.
Chega de perder tempo.

Manolo, eu suplico, vá a Mercia!


______________________________________

Considerações:

Há mentiras imensas nascidas do desespero. São mentiras que surgem em momentos de extremo medo ou de extremo abatimento moral. Tais mentiras, entretanto, são sempre concisas. Uma mentira nascida do desespero nunca se esparrama em vinte laudas, nunca especifica centenas de detalhes ricamente descritos, nunca se parece com um daqueles romances de Émile Zola. Durante uma crise não há tempo para detalhamentos, luxos narrativos ou engenhosa dramaturgia. As mentiras muito trabalhadas geralmente estão a serviço das vaidades ou das crueldades (ou de ambas).



 Escrito por Dennis D. : 13h41

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