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As Duas Roseiras / Dennis D.
"Muitíssimo obrigado", disse o homem sem olhos, quando a recepcionista o conduziu até o consultório do Dr. Morte. A temperatura do consultório era agradável, e o homem sem olhos também se sentiu confortado ao perceber o leve cheiro de leite queimado, que o fez lembrar-se da infância e da cozinha de sua madrinha, Dona Ildefonsina. "Boa-hora!", saudou-o o ilustre especialista, num timbre de voz que se poderia chamar de acetinado, mas firme. "Boa-hora!", retribuiu o homem sem olhos, logo ajustando os óculos escuros que haviam escorregado para a ponta de seu nariz. "Pode tirar os óculos", disse o Dr. Morte, "eu preciso iluminar essas cavidades, a fim de descobrir a origem do seu incômodo." Alguma coisa gelada, algo de metal, colou-se à fronte do homem sem olhos. "Ah, sim, já descobri o que está errado, senhor... como é mesmo o seu primeiro nome?" "Amoroso." "Pois bem, Seu Amoroso, vou direto ao diagnóstico. Nem existe motivo para solicitar outros tipos de exame... A questão é que duas roseiras estão brotando dentro das suas cavidades oculares. Na cavidade esquerda, percebo uma minúscula roseira branca; na cavidade direira – ora, quem diria! - uma roseira chorona, cujos cachos já estão bem apontados. Posso realizar a remoção agora mesmo, se o senhor tiver algum controle dos nervos, já que estou com falta de anestésicos, no momento. Doer muito não vai, não!" "Mas é preciso remover as roseiras, doutor?", indagou o homem sem olhos. O Dr. Morte riu. As pessoas simplórias o divertiam muito. "Preciso, preciso não é, Seu Amoroso, eu falo em remoção apenas por motivos de natureza estética. Se quiser esperar as floradas, para depois decidir, não há problema algum." O homem sem olhos suspirou. "Então eu prefiro esperar, doutor. Quero saber se as rosas são perfumadas. Se não forem perfumadas, para que me servirão, não é mesmo?" O Dr. Morte apertou o botão do intercomunicador. "Srta. Esperança, já pode vir buscar o paciente!" O homem sem olhos suspirou outra vez. Mentalmente, deu graças a Deus pelo fato de o diagnóstico ter sido aquele. O homem sem olhos passara a semana toda em grande aflição, imaginando a possibilidade de estar com um câncer. Por fim, o alívio: eram apenas duas roseiras florescendo em abril.
Escrito por Dennis D. : 21h25

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Os bonequinhos / Dennis D.
Mais claridade... para quê? Para enxergar além do que é prudente ver? Penumbra vermelha, sombras, vultos e este cheiro de bolor são tudo o que temos agora. E basta-nos, e contenta-nos, e ensina-nos a dominar os desejos estúpidos que só nos roubariam a inteligência, caso fossem estimulados e realizados. Não há relógios aqui, mas há tempo para tudo. A vela continua acesa. Quando ela estiver quase ao fim, o pavio curvo na fritura da chama já azulada, apanharemos outra vela naquele armário sem fundo. Há milhares de velas ali, todas fabricadas por monges caducos e cegos. Eles as fabricam - dia e noite, sem descanso - como penitência por seus pecados mortais. Fôssemos sãos, teríamos medo de adoecer; fôssemos vivos, teríamos medo de morrer. Somos bonequinhos esculpidos em ossos humanos – que bom! – nenhum pensamento cruel nos pode ferir. Que bom que somos assim. Que bom que somos o que somos. Um dia eu fui um homem - eu tive carnes quentes, força nos braços, firmeza nas pernas, meus pés eram estáveis, com ótimos arcos e perfeitos dedos gregos. Tive alguma beleza, algum encanto, algum poder de convencimento nas palavras ditas e nas escritas. Tive espírito para rir de mim mesmo, de modo a não me acreditar melhor do que os outros de minha espécie. Era eu um homem vivo, no entanto. Eis o ponto: eu vivia. A vida humana – como faz a todos - me trazia tantas e tamanhas angústias que, certo dia, desencantado comigo mesmo e com tudo o que me cercava, ajoelhei-me diante de uma torneira e fiquei horas a adorar uma gota d’água presa em seu bocal. Com o passar do tempo, o meu olhar de cão atropelado sacralizou a gota d’água, transformou-a num diamante puríssimo, dentro do qual eu vi, toda florescida, a Macieira do Éden. Já não me recordo bem da vida humana que tive, lembro-me apenas da gota d’água presa ao bocal da torneira. Falemos de coisas boas! Somos bonequinhos esculpidos em ossos humanos. Nenhum pensamento cruel nos pode ferir. Que bom que somos assim. Que bom que somos o que somos. Mais claridade? Para enxergar o quê?
Escrito por Dennis D. : 14h15

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Domingo de Páscoa / Dennis D.
Quase ao fim do Domingo de Páscoa, lá pelas 23h30, Mané Coelho se desentendeu com a mulher e recebeu um violento chute nos ovos.
Escrito por Dennis D. : 18h52

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