A Azeitona / Dennis D.
Abandonado pela mulher, pelos dois filhos e pelos três netos, Oliveira conformou-se com a solidão. Aos poucos, por amargura ou simples desinteresse, deixou de manter contato com os velhos amigos do clube, o Teixeirinha, o Arruda, o Camargo e o Neno da Boina. ... “Setenta e seis anos desta bosta de vida!”, Oliveira costumava dizer a si mesmo, todas as manhãs, ao abrir os olhos. Sim, dizia em voz alta: “Setenta e seis anos desta boooosta de vida!” E arrematava ao sopro de um suspiro: “Cuuuuuuu!” Num vinte e sete de abril, contudo, a existência de Oliveira transformou-se. Dia vinte e sete de abril, às oito horas da noite, precisamente. Foi esta a data que assinalou a iluminação de Oliveira. Das trevas para a luz, da ignorância ingênua ao conhecimento das verdades biográficas fundamentais, tudo muito bem esclarecido, cada detalhe em seu devido lugar. ... Ao destampar a caixa da pizza que encomendara, Oliveira notou que havia uma única azeitona verde, bem ao centro do círculo de muçarela* derretida. “Por que diabos o maldito pizzaiolo foi tão mesquinho comigo?" – pensou Oliveira – "Uma única azeitona?" O polegar e o indicador apanharam a frutinha. Não se tratava de uma azeitona qualquer, aquela era uma azeitona com face humana. Tinha olhos, nariz, boquinha de mico de circo, com dentes miúdos e língua de passarinho. Oliveira, em choque, foi dobrando as pernas até o seu traseiro alcançar o assento da cadeira. A azeitona lhe escapou dos dedos e caiu no prato. Ao cair, gemeu. Gemeu e disse: “Vamos direto aos assuntos importantes, Oliveira Bundão. Já basta de autopiedade, já basta de autocondenação, seu mulherzinha! Aquela sua família não vale nadica de nada. Todas as terças e quintas, quando você saía para o trabalho, Oliveira Bundão, a Silmara Regina abria a porta para o Neno da Boina entrar. Ele, o Neno da Boina, o safado, não demorava a abaixar as calças, para que a vagabunda da Silmara Regina lhe chupasse o minhocuçu-do-pescoço-torto. O canalha do seu filho, aquele inútil do José Carlos, passou então a chantagear a própria mãe, por conta do adultério oral e manual. Um dia – preste atenção, Oliveira Bundão! - a Sandra Mara, sua filha ordinária, ficou sabendo da chantagem e quis uma comissão de cinqüenta por cento. Bofetada daqui, chute dali, o chantagista e a chupa-cabras entraram em acordo. Não se espante, Oliveira Bundão, a coisa vai longe... E aquela viagem ao Santuário de Fátima, em 1987, está lembrado, Oliveira Bundão? A Silmara Regina não foi com o pessoal da Paróquia. Mentira das grossas! Foi é com o filho da puta do Arruda! Ei, Oliveira Bundão, me joga aí um fio de azeite que eu continuo...”
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* Juro que esta é a grafia correta em português. Juro!
Escrito por Dennis D. : 16h47

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'Questão de gosto' ou 'As amigas de Manolo' / Dennis D.
Não, Manolo, em dia algum, em hora alguma, sob circunstância alguma eu desejaria conhecer sua nova amiga, essa tal Juacyra. Que afinidade eu poderia ter com uma mulher que come gamelas e mais gamelas de açaí, lambe os beiços e faz propaganda daquelas frutas exóticas vindas das matas dos acolás? Os piripikis-da-cabeça-roxa, os cupuaçus e as baramgobimgolas não fazem parte da minha gastronomia, Manolo. Sou um mísero eurodescendente, não me afino com a riquíssima cultura dos povos da floresta, jamais em minha vida participei de uma Micareta sequer, nunca segui os Bonecões de Olinda, nunca pulei Carnaval em Salvador. Só consigo apreciar os índios ficcionais, aqueles que moram nos três volumes do Winnetou, de Karl May, por exemplo. Questão de gosto, não de preconceito. Para mim, Manolo, a sua amiga Juacyra representa la crème de la merde da feminilidade moderna: atleta, musculosa, ossuda, suarenta, freqüentadora de academias, viciada em milk shakes dietéticos, apreciadora de comida japonesa, vive com os pés metidos em tênis, nunca ouviu Mozart e – para completar esta pequena lista de horrores broxantes - fã incondicional do cinema socialista brasileiro. E você ainda tem a coragem de perguntar se eu, qualquer noite destas, concordaria em tocar piano para essa silvícola da Avenida Amaral Gurgel? Tal indagação ofensiva ficará sem resposta. Sim, concordo com você, Manolo, quando diz que tenho um gosto muito esquisito. Sinto-me cada vez mais deslocado, aqui neste mundo, eis a verdade. Nem celular eu tenho mais; atirei-o nas fétidas águas do Rio Pinheiros, há quatro ou cinco anos. Manolo, agradeço-lhe, mas não irei – de modo algum - experimentar o chá de Ayahuasca que lhe enviaram da Amazônia. Não, não acho que a atriz Ferdinanda Montenegro seja uma grande dama. Nem uma pequena dama eu penso que ela seja. Rúcula? Não tolero rúcula. Sim, eu sei que está na moda, Manolo, há anos. Basta que você se abaixe, num resturante qualquer, e já lhe querem enfiar um raminho de rúcula no rabo. Rúcula, alho, mangericão, leite condensado... quanto mais, pior. Então a prima de Juacyra se chama Tainá Luana? Que interessante! Não, Manolo, muito obrigado, mas também não quero conhecer Tainá Luana. “Awire Sohè!*”
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* Awire Sohè: forma indígena de saudação, equivale a um "Tudo certo!"
Escrito por Dennis D. : 13h47

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