A última noite do mundo / Dennis D.
Manolo, pobre Manolito, eu lhe digo com toda a sinceridade: quem tem fome de vida, também tem fome de morte. Não desejo que se apavore, creia-me, mas talvez você queira (ou necessite) saber o que penso a respeito do fim de tudo. Veja só que interessante: eu sei exatamente como tudo acontecerá... Na última noite do mundo, Manolo, a lua estará tão próxima, tão próxima que a sua imagem ocupará um terço dos céus visíveis. Será uma lua estranha, bela-horrível, oblonga, a refletir uma luz rosada e fosca, intermitente como o brilho da chama prestes a apagar-se. Será uma lua triste, mas risonha em seu adeus. Na última noite do mundo, Manolo, em todos os altos prédios das cidades, as janelas estarão escuras. Aqui e ali, enxergaremos velas depositadas em parapeitos. Não, não haverá ventos fortes, Manolo, o ar estará morno, úmido, e nele flutuarão odores de sangue e de flores esmagadas. Na última noite do mundo, os homens abrirão todas as torneiras e todas as portas das casas, e também abrirão os seus braços de cedro, e espalmarão - cada um desses homens - as mãos frias contra os respectivos peitos de cera. Por toda parte, escorrerão pequenos rios de memórias e de saudades; cada lembrança parecerá viva, tangível, real. Na última noite do mundo, Manolo, através das nuvens negras, finas e rasgadas, contemplaremos o vôo bêbado de centenas de milhares de albatrozes. Na última noite do mundo, pelas ruas, nas praças, nas igrejas desabadas, nas torres e nos macios abismos de cinzas, pares de amantes dançarão abraçados. Sim, Manolo, haverá amor. Na última noite do mundo - eu sei - minha criança perdida correrá sobre as águas e saltará para os meus braços. Juntos naquele abraço, eu e minha criança perdida assistiremos à queda de todas estrelas. Que espetáculo! Depois, ainda ligados naquele abraço, fecharemos os olhos ao mesmo tempo, porque nada mais deverá ser visto, nada mais poderá ser compreendido. A última noite do mundo trará consigo o instante derradeiro, uma bizarra aurora inversa, que levará consigo todas as dores, todos os desejos e todos os medos humanos. A última cor será o azul cobalto... E o último som, Manolito, será um si bemol maior.
__________ Aqui eu interpreto a canção "The Last Night of The World", composição de Alain Boubil, Claude Michel Schoenberg e Richard Maltby Jr. (do musical "Miss Saigon")
Escrito por Dennis D. : 19h29

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