A materialização / Dennis D.
Dona Marcolina Tagliapietra foi uma famosa médium de materialização, nas décadas de 1930 e 1940. Naquele tempo, não havia, no meio espírita ou fora dele, quem desconhecesse ao menos uma história prodigiosa associada aos dons parapsíquicos da tal sensitiva. Verdadeiros ou falsos, fato é que centenas de casos saltavam da boca do povo paulista – como aquele episódio supostamente ocorrido quando faleceu a esposa de um certo governador, cujo número de amantes fixas e esporádicas era quase igual ao número das contas do rosário de sua santa e sofredora esposa. Pois bem, dizem que, ao entrar no recinto do velório, Dona Marcolina percebeu que o espírito da falecida cornuda estava ali mesmo, ao lado do ataúde. Em atroz sofrimento, o espectro lutava para mover o cadáver, abrir a boca entupida de algodão e dizer poucas e boas ao viúvo fingido. Ao presenciar tal cena, Dona Marcolina caiu em transe. Um ou dois minutos depois, o corpo da falecida estremeceu e ergueu a mão direita. Os dedos mortos fizeram uns ‘crec-crecs’ arrepiantes e, por fim, a ponta do indicador uniu-se à ponta do polegar. Todos os presente, é óbvio, compreenderam o claríssimo significado daquele gesto chulo. Prontinho! – graças ao ectoplasma cedido por Dona Marcolina, o espírito transmitira sua última mensagem. Em 1948, a médium voltou a ser muito comentada em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, pois comandava inúmeras sessões de materialização, onde fazia surgir um mico branco fantasma. Sim, um mico do Além, um macaquinho de realejo que – diziam – fora atropelado por um bonde no Largo do Paissandu, bem defronte à Igreja dos Pretos. Esse mico do Além que se materializava nas sessões de Dona Marcolina era perfeito, perfeito, com olhos vivos, rabão agitado e as mãozinhas a segurar uma banana. Só que não tinha a cor de um mico vivo; era todinho branco, como se tivesse caído dentro de um balde cheio de farinha de trigo. Ambiente penumbroso, a médium ficava a gemer atrás de uma cortina de veludo negro, e o mico saltando de lá pra cá, de cá pra lá, abrindo a cortina, metendo a cabecinha para fora, atirando a banana ao chão, correndo para buscá-la... tudo numa agitação de espantar. Ouvia-se então um assovio baixinho e, num instante, ia-se embora o símio fantasma; desaparecia como fumaça ao vento. Pelo final de 1949, aos cinqüenta e cinco anos, Dona Marcolina morreu. Morreu de ataque cardíaco fulminante, ao preparar o seu prato matinal de aveia com leite. O corpo só foi descoberto à noitinha, quando os irmãos do centro espírita resolveram descobrir por que motivo a famosa sensitiva estava atrasada para a Sessão, e – cheios de preocupações – foram até sua casa investigar. Pobre Dona Marcolina, estava sentada à mesa da cozinha, com a cara enfiada no prato de aveia. Ao lado do corpo, aboletado no espaldar de uma cadeira, um macaquinho acastanhado, um mico de olhos bem vivos e rabo agitado, mastigava alegremente sua banana mais do que madura.
Escrito por Dennis D. : 13h16

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