Isaac / Dennis D.
Tinha ele duas pequenas cicatrizes na testa, e uma, bem comprida, na parte interna da coxa esquerda, e outra – talvez a mais impressionante de todas – no lombo da alma. Carregava-as com resignação e também com um certo orgulho, como um músico a carregar o seu estojo negro de saxofone alto. Ele não era músico, embora pudesse ter sido, caso tivesse nascido numa família um pouco melhor. O nome dele era Isaac, embora também não fosse judeu, nem filho de gente religiosa. Isaac - um nome comum e incomum ao mesmo tempo. Não, ele não gostava de pensar em si mesmo como “um” Isaac. Sempre se sentira, no entanto, como o filho de Abraão naquele instante terrível em que, deitado sobre uma pedra, esperava o momento da descida do punhal. O “punhal” nunca descia, mas talvez isto fosse ainda pior. Pior do que a morte é viver asfixiado em seu sovaco escuro. De repente, ao calçar os sapatos de biqueiras esfoladas e de traseiros vincados, ele se lembrou de uma puta pequenina, de cara sardenta, olhos verdes, que – num verão perdido há mais de dez ou quinze anos – lhe pedira permissão para lamber a cicatriz da coxa esquerda. A lembrança da puta de cara sardenta puxou então a lembrança de um rapaz chamado Orestes, garçom do Bar Gentileza, com quem se deitara num fim de noite qualquer, mais por solidão, por desespero, do que pelo desejo de lhe comer a bunda. O rapaz também lhe pedira para lamber a cicatriz da coxa. Que estranho, não? E houvera aquele cão doente, feio como o cão da morte, que se aproximara de Isaac numa praia de nome esquecido e pusera-se a lamber a mesma cicatriz da coxa esquerda. Depois, antes de partir, o cão lhe dirigira um olhar longo, lacrimoso, agradecido, do mesmíssimo modo que fizeram a puta de cara sardenta e o rapazinho garçom. Isaac esticou os dedos dentro dos sapatos, passou a mão pelos cabelos, abriu a porta e saiu. Na coxa esquerda, podia sentir a cicatriz formigar, mas era apenas impressão.
Escrito por Dennis D. : 10h02

[ ]
... (O Sistema de Comentários está ativo, embora o número permaneça invisível - sabe-se lá o motivo - mas clicando dentro das chaves é possível ter acesso à janela, ler e enviar)/ (Deseja enviar um email? Clique Aqui!)
|
Assim são as coisas / Dennis D.
Enfiaram minha mãe numa gaveta subterrânea lá no Morumbi. Assim
são as coisas. Neste domingo, almocei com uma órfã, cuja mãe também foi
enfiada numa gaveta subterrânea lá do Morumbi. Minha mensagem para o dia de
hoje é: 'Se a sua mãe está sobre a terra, abrace-a forte, beije-a muito e esteja
muito consciente da falta imensa que um dia ela lhe fará'. E ponto (já chorei no
banho, agora não vou chorar de novo!).
Escrito por Dennis D. : 14h37

[ ]
... (O Sistema de Comentários está ativo, embora o número permaneça invisível - sabe-se lá o motivo - mas clicando dentro das chaves é possível ter acesso à janela, ler e enviar)/ (Deseja enviar um email? Clique Aqui!)
|