Mariska (da série As Bonequinhas Infelizes) / Dennis D.
Trazida pela madrinha rica, a boneca top model de cabelos platinados chegou às mãos de Rebeca no finalzinho da tarde do Dia dos Mortos. A madrinha tinha aquele hábito de, ao presentear, enaltecer (ad nauseam) as qualidades e utilidades daquilo que oferecia: “Não é maravilhosa? Não é uma obra de arte na forma de brinquedo? Comprei-a na Lincoln Road, em South Beach... Eu vi a boneca e imediatamente lembrei de você, minha pequena. Eu disse para mim mesma:‘ a querida Rebeca é muito inteligente, ela sabe valorizar as coisas realmente finas!’ Se fosse para outra criança qualquer, eu jamais, jamais mesmo, teria pago o que paguei... Claro que foi mais uma de minhas loucuras... Afinal, há jóias lindas que custariam bem menos... Eu vi um par de brincos de coral...” Rebeca já tivera duas outras bonecas top models, Alanna e Geórgia, mas ambas haviam falecido há muito. A boneca nova, bem mais bonita do que suas antecessoras, recebeu então o nome de Mariska, Mariska Trump, e a primeira frase que disse foi: “Eu sou lindíssima e riquíssima”. Outras frases foram ditas perto da hora do jantar: “Eu odeio comida! Eu me alimento daquela luz que sai das máquinas fotográficas.” E mais: “Mamãe Rebeca, você tem uma câmera digital com flash? Tem ou não? Há mais de duas horas que não sou fotografada. Deste jeito eu posso até morrer!” A menina sorriu com o canto direito da boca. Precisava aparentar bondade e inspirar confiança. Com um toque maternal na voz, disse à bonequinha: “Mariska, minha filha, recebi os resultados de alguns exames médicos que você fez em Miami. Infelizmente, você está com todas as glândulas tortas e murchas. O seu caso é gravíssimo. Não, não diga nada. Não se canse, minha filha. Amanhã mesmo começaremos o tratamento. Na cabeça de Rebeca, a história de Mariska já fora traçada. O tratamento das glândulas teria desagradáveis efeitos colaterais: um absurdo aumento de peso (dia após dias, porções generosas de borracha amolecida ou de plástico derretido, provenientes de velhas bonecas, seriam coladas ao corpinho magro de Mariska); queda de cabelos; endurecimento da pele; perda de visão e outras coisinhas. Antes de dormir, Rebeca apanhou um pedaço de cartolina branca, as suas canetas coloridas de ponta grossa e pôs-se a pintar um cartaz para uso futuro. As letras arredondadas eram simples de desenhar: “Mariska Mutante - A Mulher-Tartaruga” E em letras menores: “Famosa Ex-Modelo Internacional”.
Escrito por Dennis D. : 10h30

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