Buenas noches, mi amor! / Dennis D.
A Mulher-Mais-Do-Que-Linda está sentada naquela mesa do fundo, no canto direito, como sempre. Diante da Mulher-Mais-Do-Que-Linda, assim como em todas as outras mesas da boate, existe um um castiçal improvisado, feito com uma garrafinha vazia de refrigerante, que algum demônio resolveu embrulhar em papel alumínio e depois nela amarrar três ou quatro crisântemos de pano. A Mulher-Mais-Do-Que-Linda abre a bolsa, apanha o seu isqueiro e acende a vela. Não demora e a chama se põe longa, fina e imóvel. Todos os ventiladores estão desligados; não há portas ou janelas abertas. Ar parado, ar de tumba egípcia, ar aprisionado nos intestinos de um cadáver, ar igual àquele contido num sacrário do porão da Igreja dos Aflitos, sacrário este que ali permanece porque lhe faltam as chaves - perdidas desde a chuvosa quaresma de 1954. O Homem-Bonito-Demais acaba de entrar. Caminha até a mesa do fundo, no canto direito, puxa a cadeira e toma assento. “Buenas noches, mi amor” – ele diz. A Mulher-Mais-Do-Que-Linda pergunta: Este não é o nome de um tango de Juan Polito? Ele sorri e começa a cantarolar: “Que sueñes profundo como los poetas... con lunas y mundos... un bosque de enanos... de barbas muy largas... con carita de oro y nieve en sus plantas...” Os olhos da Mulher-Mais-Do-Que-Linda ficam úmidos e seus azuis parecem mais líquidos. Ela apoia o rosto nas mãos, ao dizer: “Que encanto!” Ele pergunta: “Por que me chamou, mi amor? Algum problema?” A Mulher-Mais-Do-Que-Linda diz num sussurro: “Vou morrer e quero me despedir de você.” “Bobagem! Você não vai morrer, mi amor. Por que iria morrer? Não diga mais uma coisa dessas.” “Vou morrer, sim. Não verei o próximo amanhecer. Um homem irá acabar com a minha vida. Ele jurou que me mataria hoje e nunca faltou com a palavra. Já me confessei ao padre, já tomei a comunhão, já escrevi uma carta para a minha mãezinha. A carta está aqui, na bolsa. Quero que você a entregue pessoalmente. O endereço está no próprio envelope, não é muito longe daqui.” “Que maldito homem é esse, mi amor? Diga-me o nome dele...” A Mulher-Mais-Do-Que-Linda o interrompeu: “O nome dele não importa. Eu o chamo de Homem-Do-Coração-Frio.” A chama da vela agora azula e serpenteia. O Homem-do-Coração-Frio entra na boate, caminha até a mesa do fundo, no canto direito, puxa uma cadeira e toma assento. “Buenas noches, mi bonbonazo!” – exclama o Homem-Bonito-Demais. E emenda: “Como descobriu que eu estava aqui? Por que o silêncio, homem?” A Mulher-Mais-Do-Que-Linda abre a bolsa e retira o envelope no qual está escrito: ‘Para minha mãe / em mãos’ O Homem-Bonito-Demais cantarola outra estrofe daquele tango de Juan Polito: “Buenas noches mi amor! nos vemos mañana, yo quiero un besito, desde tu ventana, sentir que suspira tu boca de grana con ese 'te quiero!' del fondo de tu alma!” A Mulher-Mais-Do-Que-Linda abaixa a cabeça. O Homem-Do-Coração-Frio enfia a mão no bolso do paletó.
Escrito por Dennis D. : 13h46

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