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A confissão / Dennis D.
Porque ela era uma japonesa bonitona, e também porque era médica do Hospital do Servidor Público, o pessoal da delegacia tratou-a com a máxima gentileza. "A doutora já pode relatar o ocorrido", disse-lhe o mocinho do cavanhaque ruivo, dedos levemente pousados no teclado do computador. Ela começou a falar. Tinha uma voz agradável, baixa, bem feminina: "Quero confessar um assassinato. Eu matei o meu marido Vilmar." O mocinho do cavanhaque ruivo murmurou: "Prossiga, por favor, doutora". A japonesa fechou os olhos, como se buscasse a máxima concentração. "Casei-me por amor, no final do ano passado, mas o amor que eu sentia por meu marido foi morrendo logo nos primeiros meses de vida conjugal. Vilmar tornou-se uma criatura insignificante. Insignificante é a palavra exata que definia aquele homem. Um dia, dois meses atrás, resolvi me livrar definitivamente daquela insignificância. Chamei o Vilmar e choraminguei 'Ah, Vilmar, eu deixei cair o meu brinco aí dentro. Você desceria para pegá-lo?'. Ele desceu e, quando estava lá no fundo, eu apanhei uma tampa de pressão e fechei rapidamente a garrafinha de coca-cola. O coitado ficou preso lá dentro, em desespero, gritando, escorregando a cada instante no restinho de refrigerante, batendo com as mãos na parede interna da garrafinha. Era uma tarde de sexta-feira. Coloquei a garrafinha na geladeira e viajei para Ubatuba, onde reside minha irmã mais velha, Mítico. No domingo à noite, quando retornei a São Paulo e abri a geladeira, constatei o óbito do Vilmar. A hipotermia e a ausência de oxigênio foram fatais, conforme o esperado." O mocinho do cavanhaque ruivo e dois outros policiais que se encontravam na salinha lutavam para conter o riso. Com calma e elegância, a japonesa abriu a sua bolsa e dela retirou uma garrafinha de coca-cola, a qual, logo em seguida, foi depositada sobre o tampo da mesa do escrevente. No fundo da garrafa havia um brinco de pérola e uma coisa esquisita que, assim à primeira vista, parecia ser uma taturana, mas era de fato um minúsculo corpo masculino em decúbito dorsal e já em avançado estado de decomposição. A japonesa começou a chorar, mas muito discretamente.
Escrito por Dennis D. : 08h14

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Jogos de ilusionismo / Dennis D.
Na 'bobosfera' brasileira, a blogueira mentirosa compulsiva prossegue mentindo compulsivamente. Enquanto morde um bombom Serenata de Amor, comprado na boca do caixa do Supermercado Gamelão, ela digita: "Obrigada pelo carinho, meu queridissimo Conrado Menezes Couto. Agora mesmo, neste exatíssimo momento, estou a degustar um dos deliciosos chocolatinhos Fauchon que você me enviou de Paris. Mas você exagerou, meu amado, a caixa é e-norrrr-meeee. Desse jeito eu perco a minha famosa cinturinha de sílfide." Os olhos da mentirosa compulsiva voltam-se para a janela aberta. Lá está a área de serviço do apartamento do Zé Barriga, onde o próprio, braços ao alto, sovacos cabeludos ao vento, estende suas cuecas molhadas no varalzinho suspenso. A diva da broma digita: "Vou contar uma coisinha pra vocês, mas não pensem que eu valorize títulos de nobreza. O meu vizinho da frente, que é um Orleans e Bragança legítimo, homem alto, louro, corpão malhadíssimo, perdeu completamente a compostura. Ele está transitando de lá pra cá, em seu terraço, praticamente nu. Usa apenas uma toalha minúscula em torno da cintura. Isto é comportamento que se espere de um nobre?" Bethânia, a velha angorá remelenta, levanta o rabo e peida. Os dedos da mentirosa compulsiva saltitam no teclado: "Como é delicioso este perfume soave più que vem do meu vaso transbordante de alfazemas. É um vasinho muito querido, um Lalique Bacchantes Noir que eu comprei naquela viagem do ano passado. Ai, que susto! Não, não foi nada. A minha cadelinha welsh corgi veio se aninhar aos meus pés. Ela é tão carente, igualzinha a mim..." O solado da havaiana verde esmaga a barata cascuda. A velha gata Bethânia espreguiça, sai do seu ninho de trapos e avança sem pressa. Ela pensa alguma coisa parecida com "Oba! Oba! Petisquinho!"
Escrito por Dennis D. : 20h02

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O Pugnetti / Dennis D.
Aquele Kito Pugnetti, o articulista compulsivo? Bah! todos sabem que ele é um filho-da-marta de primeira; trocentos putilhões de palavras digitadas por dia, todas muito tesas a marchar em direção à voçoroca do cu-do-judas. E digo mais: Kito Pugnetti não é apenas outro caso líteropatológico, como o do Fonsequinha (alguém mais se lembra dele?), que escrevia 7 (se-te) romances simultaneamente, isto sem contar as monografias e teses em perpétuo andamento. Pugnetti é mau, meu povo. Mau, perverso, pretensioso, cínico e – ai de todos nós! – invejoso. Kito Pugnetti nasceu para morrer cedo, de morte violenta, esganado pelas próprias mãos descontroladas, numa convulsão, ao meio-dia em ponto, no coreto de uma cidadezinha do interior, coreto este recém-esmaltado com tintas de cores alegres e fulgentes (tintas Coral, para combinar melhor). Sim, o puto do Pugnetti merecia uma morte naïf. Já pensei em matar o Pugnetti, eu confesso. Ah, muita gente está sussurrando: "Eu também! Eu também!". Bom... é muito gostoso planejar um assassinato moralmente justificável, mas os riscos advindos – é claro - não compensariam o prazer do ato em si. Que pena! Esqueçamos o Pugnetti. Deixemo-lo viver – como diria Coelho Neto – e cagar nas flores – como diria Plínio Marcos, aposto.
Escrito por Dennis D. : 08h17

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