Celita e Zeno / Dennis D.
Celita, grandalhona e meticulosa, secretária de uma grande imobiliária paulista, casou-se em 1997. Zeno, o marido, homem miúdo, mas musculoso, elétrico e metido a esportista de final de semana, era técnico em refrigeração industrial. Em 1999, Zeno vendeu sua motocicleta, vendeu também o seu planador ultraleve e meteu-se de corpo e alma na tal prática do mergulho recreativo. Morreu três anos depois, em maio de 2002, quando fotografava os restos do naufragado Príncipe de Astúrias, na costa de Ilha Bela. A viúva optou pela cremação e as cinzas de Zeno foram atiradas ao vento, lá do alto do Farol da Ponta do Boi. Ano passado, Celita foi às Lojas Americanas comprar um ferro de passar roupas a vapor e deu de cara com o Zeno, todo vivaz, todo malhadinho e pimpão, braço enlaçado na cintura de uma loira peituda e bunduda com cara de puta. A coisa foi rápida, nem deu para Celita se refazer do susto. Voz alta, ela exclamou: "Você morreu, Zeno! Você morreu!" E continuou a repetir: "Você morreu! Você morreu, Zeno! Você morreu!" Ele ergueu os olhos, demonstrou alguma surpresa e disse - suave, mas claramente: "Morri pra você!" Em seguida, virou-se de costas e saiu com aquela mesma velha ginga de malandro, a bundinha muito tesa e empinada ao lado da bundona transbordante da loira com cara de puta. Celita voltou pra casa sem o ferro a vapor.
Escrito por Dennis D. : 06h52

[ ]
... (O Sistema de Comentários está ativo, embora o número permaneça invisível - sabe-se lá o motivo - mas clicando dentro das chaves é possível ter acesso à janela, ler e enviar)/ (Deseja enviar um email? Clique Aqui!)
|