Wander Lee / Dennis D.
Visto de frente, Wander Lee, o segurança, parecia um gringo executivo de multinacional: alto, pele bem clara, bochechas rosadas, cabelos loiros penteados pra trás. Os mais românticos diriam que a sua figura também fazia lembrar um jovem conde dinamarquês. Visto de costas, a exibir a fina trancinha de trinta centímetros que lhe pendia da nuca, transformava-se de primo-irmão de Hamlet em comuníssimo gay de health club. Wander Lee não era propriamente gay, nem propriamente heterossexual. Gostava mesmo é de ser chupado, bem chupado, chupado com avidez, e tanto lhe fazia se a boca tarefeira borrasse-lhe os pentelhos com batom, ou se os arranhasse com os pêlos de arame de um bigodão cossaco. Fora do horário de trabalho, a mente de Wander Lee estava sempre voltada para os assuntos de Wander Lee, a perceber, entristecer-se ou deleitar-se unicamente com Wander Lee. Anteontem, sexta-feira, às 21 horas, ao escovar os dentes, Wander Lee percebeu uma mancha esquisita em seu incisivo esquerdo. Foi buscar a lupa, acendeu uma lanterna poderosa, quis enxergar melhor a coisa. A lente trouxe-lhe a surpreendente visão de um rosto – o rosto misterioso de um negro com as pálpebras cerradas, os lábios trêmulos e uma argolinha de ouro presa à aba do nariz. A luz da lanterna fez com que aquele rosto negro abrisse os olhos (olhos assustadores com córneas amareladas). Rapidamente, Wander Lee apanhou o bicarbonato de sódio, colocou uma boa porção na escova e, com energia, esfregou-a no assombroso incisivo. A escova tingiu-se de sangue. Meio copo d’água, um pouco de água oxigenada 10 volumes, bochecho forte. Sangue, espuma, mais água, meio copo de antisséptico bucal. Ardor, ardor e ardor, mais água, lágrimas. Alívio. Foi-se o rosto misterioso do negro. “Afinal”, pensou Wander Lee, “só podia ser um pedacinho de espinafre”. E saiu do banheiro. Assim que a porta bateu, a argolinha de ouro toda ensangüentada caiu da pia. Plim, plim... parou pertinho do ralo. Dentro do ralo, dolorosos gemidos. E ódio. E desejo de vingança.
Escrito por Dennis D. : 13h09

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A única saída / Dennis D.
Estou de tal forma decepcionado com este entorpecido e moralmente minúsculo brasil, que só me resta mesmo a saída psicológica: "Eu estou neste brasil, tudo bem, mas este brasil não está mais em mim". Tranquei o coração e o espírito, não adianta bater, não adianta disparar a campainha, não adianta vir com brindes de plástico, camisetas, bonés ou bandeirinhas. Não abro. Chega, já é o bastante. Thank's a lot. Adieu, horreur des horreurs.
Escrito por Dennis D. : 08h03

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