João Baptista / Dennis D.
João Baptista, negros cabelos de aneizinhos, mãos pequenas, dedos tortos, nascera com o raríssimo dom da verdadeira simplicidade. Não brigava com a vida. Diante das adversidades, não escarrava xingamentos de ódio, nunca se abalava ou perdia-se dos trilhos da discrição. Era sempre sereno, sempre conformado, o João Baptista. “Complicar a vida por quê?”, costumava exclamar. Honesto, trabalhador, avesso a gastos desnecessários, fazia o seu pé de meia com objetivos bem definidos: ter o suficiente para comprar um apartamento de dois quartos e casar-se com uma boa mulher, uma mulher limpa, recatada, que ele já sabia quem era, nome e sobrenome, onde morava e como vivia. Se a mulher em questão não o aceitasse como marido -tudo é possível neste mundo -, ele não se aborreceria, nem sairia por aí a procurar outra qualquer. Nada de lamúrias ou desgastes inúteis, os planos seriam mudados e pronto: ele então iria sozinho viver no campo, na região de Barra Bonita; daria aulas de matemática, faria contabilidade para pequenos comerciantes, compraria também uma cabra murciana pretinha, gostosinha, e não pensaria mais em mulheres. “Complicar a vida por quê?”
Escrito por Dennis D. : 14h01

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