O menino e as vozes / Dennis D.
No meio da madrugada, dia sim, dia não, aquelas vozes despertavam o menino, que se encolhia de medo e punha-se a rezar debaixo dos cobertores. As vozes sussurravam blasfêmias, lançavam maldições e recitavam poemas indecentes. Na escuridão do quarto, cirandavam perguntas chulas, perguntas que também eram convites: “Queres minha bocetinha, ó pistolim de farinha?”; “Queres lamber meu cu, ó lingüinha de tatu?” “Queres chupar minhas tetas, ó filhote do Capeta?” E depois vinham os gemidos de arrepiar, os suspiros de dar dó, os ‘ais’ que se costuravam em ‘uis’ e, por fim, aqueles urros de bicho de jaula. Tudo então se aquietava. O menino voltava a dormir. ... Certa madrugada, aconteceu de o pequeno tomar coragem e ordenar aos berros: “Calem a boca, seus demônios desgraçados, seus filhos da puta lazarentos! Calem a boca, senão...” Fez-se o silêncio. No dia seguinte, que era um sábado, nada de vozes. No domingo, sossego, sossego e mais sossego. Na segunda-feira, o menino despertou doidinho de vontade de urinar. Pulou da cama, desequilibrou-se e caiu. Em lugar dos pés, ele agora tinha as mãos, e em lugar das mãos, ele agora tinha os pés. Apavorado, mijou-se, e – ao mijar-se – percebeu que o seu mijador agora se espremia entre as nádegas. Teve medo de procurar o buraquinho do rabo, muito medo. Tapou o rosto com os pés e chorou, mas suas lágrimas quentes escorreram do umbigo.
Escrito por Dennis D. : 10h06

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