Os quatro cafezinhos / Dennis D.
O casal me enoja. Ele e ela são gentinha que consulta as seções literárias de jornais e revistas, a fim de descobrir quais os livros mais vendidos do mês. Só compram best sellers, os quais nunca são lidos, mas ‘displicentemente’ largados nos assentos de couro de seus automóveis. Tolos! Nenhum livro de Marcel Proust foi best seller. Em toda a história da boa literatura, aliás, nenhum livro que preste chegou a ser campeão de vendas, em lugar algum, sob circunstância alguma. Tudo o que é popular também é medíocre. Penso assim. O casal me enoja. Claro que eles têm um cachorro. Uma cadela, para ser específico. Uma cadela lésbica, para ser mais específico ainda. A cadela chamava-se Naomi, até maio passado, mas agora se chama Safo. E Safo tem uma amante fixa, a poodle George Sand, cujos donos formam outro casal nojoso, gente que luta pela preservação dos caracóis macupissus da Chapada dos Veadeiros. Os dois casais me enojam. Eles jantam juntos, todas às quintas-feiras, ora no lar de Safo, ora no lar de George Sand. Os dois casais me enojam, porque são como são, e porque sim. Eles mastigam com uma delicadeza que não é natural, bebem vinhos caros em pequenos goles, criticam os amigos em comum, rindo em variações sincopadas: “Há! Ho! Hi!” Durante a sobremesa, relam-se com os joelhos quentes e com os pés frios, fornicam-se com olhares rápidos, entrecruzados, enquanto as duas cadelinhas ofegantes se entregam aos seus divertimentos sexuais. Lúcia, Bruno, Paulo, Mariana, Safo, George Sand, todos na sala de jantar. Bernadette na cozinha, esperando o café coar. Dorzinha esquisita no peito. Bernadette sente medo, porque é cardíaca, e porque precisará servir corretamente os quatro cafezinhos, sem derramar uma gota sequer.
Escrito por Dennis D. : 15h15

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