Ester / Dennis D.
Depois de tudo, ela puxou o lençol, enrolou-se nele e saiu da cama. Fez como muitas: deixou bem claro que a ‘mulher de respeito’ voltara a assumir o controle total daquele corpo. Um corpo que fora – circunstancial e temporariamente – invadido pelo espírito de uma cadela qualquer, esta já despachada ao seu habitat original, o Quinto dos Infernos. E como eu permanecesse deitado, nu, de pernas abertas, olhar atravessando o teto, ela puxou a ponta da colcha e cobriu-me. Não o fez para evitar que eu me resfriasse, mas para deixar bem claro que o momento era outro, o mundo era outro, ela mesma era outra. A ‘mulher de respeito’ costuma se irritar com a nudez displicente de um homem - de qualquer homem acima dos catorze anos anos. Assim é. Passaram-se vinte minutos e, por fim, ela saiu do banheiro. Estava vestida, bem penteada, lápis nos olhos e batom nos lábios. Calçou os sapatos, apanhou a bolsa, soprou um beijo em minha direção e escafedeu-se. A ‘mulher de respeito’ iria direto para casa, a fim de remarcar seu território, encher o saco do pobre Bernardo, apontar-lhe as imperfeições, reclamar de suas pequenas desatenções de marido, rir-se do seu bigode mal-aparado, zombar das suas orelhas de abano. “Vá operar essas orelhas de Dumbo, Bernardo! Tome coragem!” Ele notará que ela está com um brinco apenas? “Cadê o outro brinco, Esterzinha?” ... O outro brinco está aqui na minha mão. Jóia cara, eu sei. Assim que eu acabar de mijar, vou atirá-lo na privada e dar a descarga.
Escrito por Dennis D. : 11h55

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