O Bolo de Morucobaça / Dennis D.
A palavra ‘pobrismo’ ainda não foi dicionarizada, mas o será. Pobrismo é o culto e a utilização demagógica de tudo o que seja miséria ou dela se derive: dor, desgraça, sofrimento, revolta, impotência, feiúra e, sobretudo, ignorância. Já faz um tempinho que o pobrismo está na moda, ao menos por aqui – onde ele até se mistura ao ufanismo nacionalista. Quem nega o pobrismo – pontuam os acadêmicos de esquerda - nega a nossa exuberante cultura-raíz, o grande berço das mais primitivas tradições populares. Aqui, portanto, aderir aos valores ideológicos e estéticos do pobrismo é praticamente um dever patriótico. ‘É coisa de pobre? Ah, Então é coisa boa!’ Ligo a televisão e lá está a molambenta Regirina Cassel, trajada como uma daquelas escravas das gravuras de Debret, a entrevistar um septuagenário desdentado, vesgo e maltrapilho, de nome Capitão Zoínho. Regirina exulta: “Que alegria, minha gente! Eu estou aqui, ao lado deste homem simples e carismático, conhecido como Capitão Zoínho, um brasileiro autêntico (?) descendente de escravos, de índios e portugueses!” O banguela sorri e envesga ainda mais. Ela prossegue, toda animada: “Capitão Zoínho, é verdade que o senhor é pai de quarenta e sete filhos, tem cento e noventa e oito netos, setenta e quatro bisnetos e ainda arruma fôlego pra dar conta de três esposas?” Risos e mais risos. O pobrismo é assim mesmo - transforma defeitos em virtudes, ignorância em sabedoria, coisas tortas em coisas retas. Pobrismo é ideologia, estética, culto religioso e também arte. A entrevistadora pobrista se enfia na cozinha sombria de um casebre cai-não-cai. “Dá licença, meu povo? Posso entrar?” Ela entra, é claro, e presenteia-nos com as imagens das três esposas do Capitão Zoínho. “Esta aqui é a Dona Gasiolina, a mais velha. Ela tem cinqüenta e quatro anos e foi a décima nona esposa do Capitão.” O rosto de Gasiolina revela timidez e uma ponta de malícia. A coisa segue cada vez pior. “Esta é a Oliowanda, que tem trinta e cinco anos e foi escolhida logo depois de Dona Gasiolina. Esta aqui - olhem só que negra mais lindinha! - é a Totonha, de dezenove anos, a esposa que chegou por último. Todas as três são ex-prostitutas, ex-residentes da chamada Zona da Maricotinha. Elas não se envergonham do trabalho que faziam, não. São mulheres altivas, guerreiras...” Regirina volta-se então para o desdentado polígamo: “Que disposição, hein, Capitão Zoínho? Você dá conta desse mulherio todo? Senta aqui e vem contar pra gente o segredo dessa energia, seu malandrinho...” Assim é o pobrismo: tudo que for brasileiro é essencialmente lindo, puro e valoroso. O desdentado, vesgo e promíscuo reprodutor transforma-se rapidamente num ícone da sabedoria popular. No pobrismo, a ignorância sempre é sabedoria. Sempre e sempre. Depois de abrir a boca e expelir seus jacás de asneiras, Capitão Zoínho avisa: “Vou soltar meu barro lá no matinho, já vorto!” Regirina Cassel se aproxima da mulher mais velha: “Como é mesmo a receita do Bolo Duro de Murucobaça Fibrenta, Dona Gasiolina?” A receita é explicada, detalhe por detalhe, a começar da misteriosa frase: “Nóis pega uma fôia bem nova da murucobaça fibrenta e vamu punhá pra frevê na água bem quente.” Aliviado, o Capitão Zoínho retorna ao interior do casebre. Todos se alegram, principalmente Regirina Cassel. “Vem cá, meu nego! O Brasil quer conhecer a sua história de vida, homem! É verdade que você é neto de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião?” Estufado de orgulho, ele confirma: “É!” Desligo a televisão. Eu suportei até mesmo a receita do Bolo Duro de Murucobaça Fibrenta, mas ouvir a lenga-lenga biográfica de um putanheiro banguela, vesgo, burro e polígamo, e ainda por cima neto de Lampião, está muito além dos limites da minha paciência. Devo estar velho, porque sou do tempo em que o lugar de lixo era dentro do latão.
Em tempo, conjeturo: Será que a pobrista Regirina Cassel comeu o Bolo Duro de Murucobaça Fibrenta? Se comeu, foi porque mereceu.
Escrito por Dennis D. : 12h06

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