Idéia descartada / Dennis D.
"O macaco de que falo, senhor, é pequeno assim, da altura deste meu polegar." Ele esticou a mão e ergueu o polegar. Acrescentou: "A cabeça do macaquinho, de orelha a orelha, equivale à largura desta unha." Notei que a unha estava limpa e bem cuidada, assim como o homem por inteiro. Fiquei impressionado com várias coisas: a correção do terno, a alvura da camisa, as meias sem rugas, os sapatos negros bem engraxados. Os cabelos escuros e densos haviam recebido um corte simples, rente, talvez por praticidade. Aquele homem devia visitar o cabeleireiro a cada dez ou doze dias. Cabeleireiro, manicure, sabe-lá o que mais. Cuidava-se devocionalmente. Eu pedi a ele que me repetisse aquela história do frasco de shampoo. Ele suspirou e olhou-me com resignação. "Como já lhe disse, senhor, o meu shampoo é de uso diário, erva-doce com melissa, tem uma tonalidade azulada e perfume suave. Sei que é doce, porque algumas vezes a espuma escorre-me pela face até a boca. Sim, tem o sabor adocicado, mas sem exagero, compreenda. Fato é que o macaquinho se agrada do gosto do meu shampoo. Eu noto que o conteúdo do frasco vai diminuindo, dia após dia, e sem qualquer relação com o meu próprio consumo. É ele, o bicho, que está drenando o líquido. Sempre encontro indícios: ora um pêlo castanho, ora um rastro de pegadas, coisas assim. Certa vez, eu surpreendi o cretino, no meio da madrugada. Ao abrir a porta do banheiro, escutei um guincho agudo e o barulho do frasco despencando da prateleira de vidro. Ao acender a luz, ainda pude ver a sombra veloz do macaquinho a desaparecer pela fresta da janela. Ele é esperto como o Diabo, não se deixa apanhar em flagrante. Minutos depois, o homem bem cuidado me fez o convite: "Peço-lhe o imenso favor de passar uma noite – uma única noite – em meu apartamento, senhor. Estou disposto a pagar-lhe uma quantia bem razoável. Gostaria que o senhor surpreendesse o bicho e acabasse com qualquer dúvida, por mínima que reste." Concordei. Não pelo dinheiro, mas por uma questão de piedade. Uma noite inteira em vigília, ouvidos atentos a todos os ruídos, eu ali sentado em uma poltrona que arrastei para junto da porta do banheiro. Dormi dez minutos, se tanto, quando já havia amanhecido. Ergui-me da poltrona, estiquei os braços, bocejei. Quando abri a porta do banheiro e olhei para o frasco do shampoo, tive aquela sensação esquisita. Nada daquilo me parecia estranho. Era óbvio que eu estava em casa. Aquele era o meu apartamento, aquele era o meu banheiro, lá estavam a minha escova de dentes branca e roxa, o meu creme dental com cálcio, a minha própria imagem refletida no espelho oval. O shampoo de erva-doce com melissa era o meu shampoo de uso diário. Examinei minhas unhas – todas limpas e bem cuidadas. Então ficou perfeitamente claro que o macaquinho também era um problema exclusivamente meu. Só eu via o bicho, só eu sofria com as suas diabruras. Dentro do frasco, o nível do shampoo havia descido dois dedos. O macaquinho se aproveitara daqueles meus dez minutos de sono. Que maldito! Tive então a idéia de envenenar o shampoo. Pareceu-me uma idéia maravilhosa, mas logo se dissolveu no horror de uma nova hipótese: e se eu mesmo também fosse o macaquinho que bebe o shampoo? Olhei novamente para as minhas mãos. A pele escurecia, os dedos se alongavam, as unhas cresciam, mais e mais, segundo a segundo. A idéia do veneno estava descartada.
Escrito por Dennis D. : 09h46

[ ]
... (O Sistema de Comentários está ativo, embora o número permaneça invisível - sabe-se lá o motivo - mas clicando dentro das chaves é possível ter acesso à janela, ler e enviar)/ (Deseja enviar um email? Clique Aqui!)
|