A três / Dennis D.
No começo, ela se mostrara ciumenta. Fazia piadinhas, chamava de 'exagerado' o jeito dele a cuidar do Selmer – o modo como lavava a boquilha com sabonete neutro e escovinha cilíndrica, a limpeza geral, feita com a flanela mais do que macia, o modo paternal com que ele deitava o francesinho no estojo de couro marrom. Depois, ela se acostumou, mas – ainda assim - vez ou outra, murmurava frases curtas entre dois suspiros de impaciência: "Meu Deus! É apenas um saxofone! Não é um bebê!" Passou o tempo e ela também se enamorou do Selmer, de seu canto tenor, de seu vibrato cheio de sentimentalidade, de suas modulações cariciosas e que morriam devagar, aveludadamente, num sopro de brisa. Ela, ele e o francesinho; os três na cama, nus e preguiçosos como amantes na ressaca que sucede ao ménage. "Ah, não pare! Toque Summertime!", ela pedia – os olhos castanhos iluminados pelas chispas douradas do Selmer. Ele resmungava: "Estou com sono!". Ela fazia cara de triste, ele - vencido - puxava o ar e colava os lábios na boquilha. Ao sopro das primeiras notas de Summertime, ele já sentia aquele aperto frio no coração. Era o ciúme. Dela ou do Selmer, ou talvez de ambos.
Escrito por Dennis D. : 08h03

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