Dennis D.


O romance de Manolo / Dennis D.

Quando a sua mente espuma, Manolo, eis o perigo! Você põe-se a escrever impensadamente, num fluxo livre, intestinal, que apavora mais do que irrita. É o caso de seu e-mail mais recente – obra prima do abuso mais cínico, mais desavergonhado.
Não me cobre opiniões sinceras, por favor, como se algumas de minhas opiniões o fossem e outras nem tanto. Eu sou honesto, Manolo, sempre e sempre, ainda que isto me cavoque as carnes e belisque a alma. Sou honesto porque sou, nasci assim, não há virtude alguma num legado genético.
Quanto ao romance que você pretende escrever - e do qual tem apenas um esqueletinho de ossos de vidro e um punhado de idéias vagas - eu confesso que, desde o próprio título, ele já me intimida: “O Convento dos Mil Pecados”. Pergunto-me, Manolo, por que mil e não mil e um? Sim, já que a narradora que você inventou, Madre Vanessa do Espírito Santo, me parece uma versão shrekiana (e chula) da princesa Sherazade, personagem do velho Alf Lailah Oua Lailah (As Mil e Uma Noites).
Examinemos o rascunho do Capítulo 1. À beira da morte, Madre Vanessa resolve ‘se abrir’ (há grifo duplo no 'se abrir’) com seu jovem e musculoso confessor, Padre Remildo da Conceição. Hummm. Resolve ‘se abrir’ ou confessar seus pecados (os dela), Manolo? Qual seria a conotação exata da mencionada abertura, já que você coloca a personagem deitada num catre estreito, febril, trêmula, mas com a mão pousada no colo do sacerdote? O que faz a mão da madre no colo de seu confessor? Cata bolotinhas no tecido da batina do infeliz? Outra pergunta: você conhece ou conheceu algum sacerdote musculoso? Ainda que existam dois ou três padres halterofilistas, seria mais prudente eliminar essa estranha hipertrofia muscular do Padre Remildo, não acha?
Prossigo. Não tenho a intenção de chateá-lo, Manolo, mas imagino que talvez exista um problema insolúvel, logo nas suas primeiras notas de planejamento. Ei-lo: você pretende que Madre Vanessa, praticamente à morte, narre mil aventuras sexuais vividas ao longo de cinco ou seis décadas. (???!!!) Quantos dias e noites seriam necessários para que Padre Remildo conseguisse escutar toda essa lengalenga e, por fim, perdoasse a madre devassa?
Mil narrativas consumirão um catatau de páginas, Manolo. Não é coisa pouca, não. Ou Madre Vanessa não está tão enferma assim... ou morrerá antes de narrar a sua trigésima historieta libidinosa.
Preocupa-me também essa mania sua, Manolo, de não dar importância alguma às verossimilhanças. Quem você pensa ser? Eugène Ionesco? Conforme suas anotações, Madre Vanessa sempre manteve vida dupla: a religiosa severa, piedosa, inabalável na fé e – paralelamente – a puta desvairada que mantém uma robusta carteira de clientes, além de dúzias de amantes de ambos os sexos e, como se tantos não bastassem, um punhado de lacaios púberes comprados nos fundões de Minas Gerais. Não, Manolo, sinto muito, mas não me parece tecnicamente possível a tal vida dupla da personagem, pelo simples fato de que os dias não têm mais do que vinte e quatro horas. Em que horários Madre Vanessa dormia, comia, orava, cuidava das rotinas do convento, ou mesmo fazia suas necessidades fisiológicas? Não haveria tempo cabível para cumprir as tantas tarefas monásticas e ainda se dedicar às orgias, às sessões de sadomasoquismo e demais putarias. Madre Vanessa teria sido abençoada com o dom da ubiqüidade, Manolito? Bah!
Basta, por hora! Estou cansado de apontar defeitos em suas notas de planejamento. É desagradável, é antipático, não quero mais discutir essa pavorosa pornochatice que é ‘O Convento dos Mil Pecados’.
Quer um conselho? Não darei conselho algum. Escreva o seu romance como puder. Boa sorte, Manolo, feliz destino, e mande lembranças minhas aos seus monodimensionais Madre Vanessa do Espírito Santo e Padre Remildo da Conceição.
Um toque levemente clássico: ‘Requiescat In Pacem’, seu puto!


 Escrito por Dennis D. : 15h03

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DelicaTesas / Dennis D.

Lidiane disse à sua mãe: “Hoje, mãezinha, a senhora completa sessenta e cinco anos. Sessenta e cinco anos de carinho e de dedicação a todos nós. O meu presente não será uma camisolinha de algodão, ou um par de chinelos atoalhados, ouviu bem, mamãe? O meu presente será uma decisão importantíssima que eu tomei, apoiada pelo Ivan e pela Sandra Mara, naturalmente. De hoje em diante, mamãe querida, a senhora não cozinhará mais. Isso mesmo, nem um ovo a senhora fritará. Nem um pãozinho a senhora vai colocar na torradeira, ouviu bem mamãe? Tudo o que sair daquela cozinha será feito pela Clarinha. O que a Clarinha não souber fazer, eu mesma ensinarei a ela. Chega de cozinha, ouviu, mamãezinha! A senhora merece este descanso. Não, não, não me venha dizer que gosta de cozinhar! Ninguém gosta de cozinhar todos os dias, mamãe! Ninguém gosta de picar cebolas! Não, não e não! Nem um ovinho a senhora vai botar na frigideira, ouviu mamãe? A senhora está proibida, entendeu? Nem um suco de laranja a senhora vai preparar. Se quiser suco, peça para a Clarinha fazer. A senhora já colaborou bastante, já nos ofereceu mais de quarenta anos de refeições saborosas. Agora basta de tanto sacrifício! Não fique com esses olhos arregalados, mamãe. Entenda que é um gesto de amor, uma delicadeza nossa, um ato de reconhecimento pelo muito que já nos foi oferecido. Chega de cozinha! A senhora vai ficar sentadinha naquela poltrona confortável ali, fazendo este crochezinho aqui. Quando cansar do crochê, terá os seus bordados singelos... Nada de pontos miúdos; linhas grossas, agulhas grandes, que a senhora já não enxerga tão bem. E sempre a escutar as músicas relaxantes da Enya, daquele disco que tem os barulhos da chuva caindo, o canto das cigarras no verão... Está feliz, mamãe? Muito feliz? Claro que está, não precisa dizer nada com palavras. O que são as palavras? Nada! Seus olhos marejados já dizem tudo. Ah, mamãezinha, o que me deixa mais orgulhosa é poder oferecer este presentão para a senhora. Sessenta e cinco anos cozinhando, pondo e tirando mesas, fazendo cafezinhos, bolos nos aniversários. Chega de tanta trabalheira. Bolos nós os compraremos na confeitaria da esquina. Não quero ver a senhora mover uma palha, lá naquela cozinha. De hoje em diante, só repouso e artesanato leve, entendeu bem, mamãe? Não precisa ficar assim. Não se emocione demais, que faz mal ao seu coração. Não queremos uma crise de angina, queremos? Eu entendo o seu espanto. Não, mãe, não chore! Por que chorar agora? Sorria, mamãe, nada de lágrimas! Sorria mamãe, fique feliz! Nós todos amamos muito a senhora! Muito, muito, muito, muito!"

 Escrito por Dennis D. : 09h58

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O Jota / Dennis D.

O meu primeiro inimigo foi o Jota, um moleque feladaputa que morava na Rua Dr. Costa Junior. Moleque metido a sabichão, exibido, trapaceiro do caralho, queria mandar em todas as brincadeiras (inventava e 'desinventava' regras). Ainda vive, esse desgraçado, e meteu-se com políticos famosos. É até mesmo sócio de alguns deles em negócios pra lá de suspeitos.
O Jota é prova viva de que gente safada já nasce safada - o tempo só lhes aperfeiçoa a canalhice.


 Escrito por Dennis D. : 08h17

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Bobô, o cachorro. / Dennis D.

O meu primeiro amigo foi um cachorro de pano, que eu chamava de Bobô. Tinha o corpo mole, amarelado, os olhos pequeninos, negros, e uma língua cor-de-rosa pendurada no canto da boca entreaberta, sem dentes.
Bobô foi um amigo maravilhoso. Sua maior virtude: o silêncio compassivo.


 Escrito por Dennis D. : 23h36

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