Outro Mundo / Dennis D.
Ontem, ela acordou morta. Mundo imenso, alto, largo, profundo em seus túneis incontáveis, em seus infinitos de cima e de baixo, de leste e de oeste, de dentro e de fora. Mundo de azuis siderais, marinhos quase negros, cobaltos repousantes, nos quais tremeluziam pontos de luz que não eram estrelas, nem eram vaga-lumes, mas algo semelhante às impressões eletroquímicas armazenadas nas retinas, uma coisa aparentada com a luz fantasma das estrelas que já se apagaram há milênios. Mundo de dar medo, se medo coubesse na paz da inexistência de todos os perigos - assim era aquele lugar. Acordou morta e não se abalou. Sentiu o perfume adocicado de um lírio, pensou em Santo Antonio de Pádua a carregar um Menino Jesus de cera muito bem feitinho, muito louro e ataviado em oiros. E vesgo, o pobrezinho, vesgo como Adamantina, a filha da cozinheira de sua avó. O nome da avó fora esquecido, bem como a sua figura e os traços de seu rosto, mas nada disso importava. Depois do perfume de lírio, veio o calor em ondas mansas e o toque de dois braços fortes que a carregaram como se ela fora outra vez uma menina. “A morte é coisa boa”, foi o que pensou, deliciada, porque - àquela altura - nem desconfiava da existência dos enormes caranguejos brancos.
Escrito por Dennis D. : 11h45

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Inês Salete / Dennis D.
Divórcio aos sessenta e quatro anos, divisão dos bens, mudança para um apartamento menor – sala única, dois quartinhos, um só banheiro e cozinha de casa de bonecas. Nada seria fácil. Inês Salete escutou umas batidinhas muito leves na porta. Espiou pelo olho-mágico e viu o rosto distorcido e de uma jovem loura, dessas que abusam da maquiagem, dessas que vivem rindo à toa. Entreabriu a porta. "Pois não?" "Não me está reconhecendo, Inês Salete? Sou eu, a Chantal Luares!" Absurdo. Chantal Luares, depois de cinqüenta e tantos anos, e aparentando no máximo vinte e oito? Inês Salete não podia acreditar naquilo. "Você não pode ser a Chantal Luares, mocinha. Chantal Luares teria, hoje, mais de sessenta anos nas costas." "Deixe de ser boba, Inês Salete, amigas imaginárias não envelhecem da mesma forma que as pessoas comuns. Eu voltei, sim, e não envelheci muito... porque não quis. Não me agradam as rugas, nem o sobrepeso, nem a menopausa. E digo-lhe mais: também me casei, mas foi com um homem maravilhoso, não como aquela porcaria que você arrumou. Porcaria que ainda lhe deu um pé na bunda e foi viver com a recepcionista de coxas grossas." Inês Salete deu passagem e Chantal entrou. Ela carregava uma mala elegante, da Louis Vuitton. "Não se deixe enganar pelas minhas roupas finas, nem pela mala. Eu não sou rica, Inês Salete. Meu marido é modelo em início de carreira. Tudo o que tenho são estas coisinhas frívolas que você consegue criar em sua cabecinha fantasiosa. Este anel, por exemplo..." – e estendeu a mão – "deveria ser um Cartier, mas parece bijuteria de feira. E sabe por que, Inês Salete? Porque você jamais viu um verdadeiro anel da Maison Cartier. Nós duas precisamos dar umas voltas e conhecer lojas finas, querida. Nem roupas de baixo estou usando. Tudo sua culpa, amiga desnaturada!" Chantal Luares falava pelos cotovelos, sempre fora uma tagarela de marca, mas era bom tê-la de volta. Inês Salete sorriu, confortada. Ofereceu um cafezinho, Chantal Luares aceitou, ambas caminharam até a minúscula cozinha. Enquanto a água esquentava no fogão, Inês Salete pôs-se a pensar em como seria, ou deveria ser, o marido imaginário de sua imaginária amiga. Chantal Luares, que sempre tivera acesso imediato aos pensamentos de Inês Salete, exclamou: "É moreno. Moreno e bem alto. Você gostará muito dele. Viveremos muito bem aqui, os três, você verá. Vamos, sorria, mulher! Abra um sorriso bem feliz para a sua Chantalzinha do coração!" A água começou a borbulhar.
Escrito por Dennis D. : 07h59

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