O flautista / Dennis D.
Justin Minard é um flautista parisiense, tuberculoso, loiro e franzino, que apanha de sua mulher. Minard é criação do escritor George Simenon e aparece em uma das primeiras novelas do detetive Jules Maigret (La Première Enquête de Maigret). Sempre que Maigret perguntava ao músico se a mulher deste não se incomodaria com isso ou com aquilo, Minard lhe respondia: “Não tem importância”. A certa altura da novela, a megera tranca num armário todos os pares de sapato do flautista, a fim de que ele não saia de casa, mas Minard acaba por pedir um par de sapatos emprestado ao porteiro do prédio e ganha a rua. “Não tem importância”, ele repete e torna a repetir, referindo-se a quaisquer vicissitudes de sua existência. Em outro momento da narrativa, o flautista comenta que aprendeu bastante a respeito de seguros de vida, pois não irá durar mais do que três anos e sua mulher estudou profundamente assuntos ligados à seguridade privada e pública, tornando-se uma ‘especialista’. Ele não diz isso com mágoa, nem se trata de uma lamúria de quem se sabe enfermo. É apenas um comentário objetivo inserido numa conversa com Maigret, na qual o músico se oferece para auxiliar em certa investigação e representar o papel de vendedor de seguros. “Não tem importância”, o mote do flautista tuberculoso de Simenon, leva-me a pensar no quanto o discurso banal de um personagem de ficção, ainda por cima secundário, pode motivar – na categoria dos leitores atentos - considerações filosóficas mais profundas, tais como a constatação de que, nesta vida e neste mundo, bem poucas coisas são realmente importantes. E quanto mais se vive, mais se comprova tal verdade – e fugir dela, ou tentar negá-la, é receita prontinha para mergulhar de cabeça num poço de decepções. É óbvio que os leitores atentos são raros, cada vez mais raros, pois, ainda que involuntariamente, absorvemos – neste nosso tempo - uma espécie de cultura da ansiedade (ou da premência), e dentro dela a maioria de nós só deseja descobrir de que forma a trama vai terminar, e qual personagem será punido ou premiado, de acordo com suas respectivas qualificações morais, ou o grau de simpatia que conseguiu catalisar. O certo é que o melhor de qualquer romance ou novela, no que toca a possíveis aproveitamentos filosóficos, está situado bem antes das derradeiras páginas. O final de um livro é apenas um ponto a que se chega, no qual não mais é necessário demonstrar coisa alguma, pois o principal, todo ele, já foi suficientemente apresentado aos leitores. Se um determinado personagem nos inspira, ele o faz pelo que é, ou parece ser, ao longo da narrativa, e não pelo fim que o autor lhe destinou. Madame Bovary, de Gustave Flaubert, é bom exemplo disso. Não é o seu trágico final como personagem que nos motiva a investigar melhor o saco de inquietudes quase crônicas, as insatisfações plausíveis ou implausíveis que assombram a vida de muitas mulheres. Eu diria até que Emma Bovary nos retrata, ainda que não sejamos mulheres, e atua de modo a nos reconhecermos nela, em cada cena, em cada decisão tola, em cada aceitação da ilusória procura da felicidade plena, desde o princípio do romance. Chega a ser desconfortável, se nos classificamos como leitores atentos, porquanto todos nós, de alguma forma, somos Emma Bovary, sim; nascemos, vivemos e morreremos sem saber lidar com as nossas ilusões de felicidade, ainda que tenhamos ilusões de felicidade bem diferentes daquelas que moviam Emma. Se o flautista, de Simenon, pudesse assistir aos derradeiros instantes da Emma Bovary, de Flaubert, por certo não faria qualquer julgamento moral. Repetiria o seu mote “não tem importância” – e estaria absolutamente certo, a meu ver. A parte chata deste texto é admitir que, enquanto não acumulamos sabedoria existencial na medida e no peso suficientes, somos prisioneiros da ilusão de que, nesta vida e neste mundo, quase tudo é tremendamente importante. ... Compreendeu, Manolo? Não tem importância, esqueça.
Escrito por Dennis D. : 12h57

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