O despertador / Dennis D.
Setenta e sete anos, sete meses e sete dias a repetir o mesmíssimo ritual noturno. Yeleno Alves ajustou o velho despertador para as sete e dezessete. Em seguida, liberou a trava do alarme e desligou o abajur em forma de ovo de avestruz. A escuridão esparramou-se em veludos. Horas e horas e horas. Vieram então os primeiros chilreios dos pardais, depois os sons muito distantes de um trem, e – por fim – a luz da terça-feira. Sete horas e dezessete minutos. O despertador tremelicou, estalou, avermelhou-se como ferro em brasa, arfou, gemeu, tossiu, fez uma pausa de alguns segundos e soltou uma gargalhada tão alta, mas tão alta, louca e metálica, que poderia ter matado Yeleno Alves de susto, caso ele já não estivesse morto há mais de duas horas.
Escrito por Dennis D. : 11h08

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