Zé Renato / Dennis D.
A primeira aparição aconteceu num quatro de novembro, entre sete e sete e meia da manhã. Zé Renato, meio dormindo, meio acordado, arrastara os chinelos até o banheiro e assumira a posição de sempre, parado diante do vaso sanitário, mão esquerda apoiada nos azulejos. De repente, as borbulhas começaram a subir. Duas, quatro, vinte, dezenas, centenas, milhares de bolhas de ar a explodir na água rasa do vaso. Zé Renato naturalmente pensou que se tratasse de algum problema hidráulico, refluxo do esgoto, ar nos canos ou qualquer porra de entupimento causado pelo maldito vizinho de baixo. Então se ouviu um ronco de pororoca e a cabeça de tia Anastácia emergiu. Uma cabeçorra escura, com enormes olhos esgazeados, boca rasgada, beiços inchados, dentes de égua campolina. E a cabeçorra gotejante disse: “Padre comunista num acredita em pecado, não sinhô, pur isso eles paga michê, eles chupa pinto e dá o cu sem curpa e sem rimorso.” Tossiu e continuou: ”Padre cumunista num acredita nem em Jesus Cristo, vai acreditá em pecado?” A segunda aparição aconteceu na manhã de um dezessete de janeiro. A cabeçorra de tia Anastácia emergiu no mesmo vaso sanitário, do mesmíssimo modo já descrito, e disse: ”Seu Monteiro, ó seu Monteiro, já vô punhá o seu café na mesa!” Depois disso, não deu um mês sequer, Zé Renato mudou-se para um outro apartamento, num outro edifício, num outro bairro, numa outra cidade.
Escrito por Dennis D. : 09h58

[ ]
... (O Sistema de Comentários está ativo, embora o número permaneça invisível - sabe-se lá o motivo - mas clicando dentro das chaves é possível ter acesso à janela, ler e enviar)/ (Deseja enviar um email? Clique Aqui!)
|
Clarísia Parísia / Dennis D.
Clarísia Parísia, tão satisfeita e conformada, sempre feliz, sorriso miúdo na cara rosada de fadinha que sonha alegrias à sombra um cogumelo disney. Feliz por ser pobre de marré-de-si e morar no porão de um porão de um cortiço da rua Manoel Dutra. Pois é, feliz por acordar todos os dias às cinco horas da madrugada, a fim de aprontar o tabuleiro de cocadas. Feliz ao deixar o porão do porão e feliz ao chegar ao seu ponto de vendas, ao lado de um poste mijado. Feliz por ter pés grandes com unhas encravadas e uma que sangra. Sangra, coagula e invariavelmente acaba colada ao plástico do sapato. Clarísia Parísia, a coceirinha boa lá embaixo, coça, coça, coça que coça, como é gostoso coçar! Num dia de ventania, desmaiou por cima do tabuleiro. Foi levada ao Pronto-Socorro Municipal, onde chegou com a saia levantada, sem calcinhas. Durante o exame, ouviu a conversa esquisita dos médicos: "Hermafroditismo?" "Hermafroditismo." "Grávida?" "Grávida." "Lauro, peça pra Elisa trazer uma câmera digital!" "Sente-se melhor, minha filha? Passou a tontura?" Clarísia Parísia suspirou. Estava prestes a responder qualquer coisa, mas ficou confusa e nada disse. Preferiu apenas sorrir de felicidade, como sempre.
Escrito por Dennis D. : 11h08

[ ]
... (O Sistema de Comentários está ativo, embora o número permaneça invisível - sabe-se lá o motivo - mas clicando dentro das chaves é possível ter acesso à janela, ler e enviar)/ (Deseja enviar um email? Clique Aqui!)
|