Bodegón / Dennis D.
O palhaço Bodegón não é menos palhaço porque entra em cena de cara limpa. Aliás, sempre entra de cara limpa. E jamais usou chapeuzinho de feltro, ou calças largas, ou sapatos verdes, ou gravatas gigantes. O palhaço Bodegón é aquilo que se poderia chamar de 'palhaço essencial'. E absolutamente mudo, como deve ser um bom palhaço essencial. Não toca buzina de mão, também não sopra apitos, nem recorre ao velho truque das falsas explosões com caixas cheias de talco. O palhaço Bodegón, saibam todos, devido à sua extrema sensibilidade artística, tem verdadeiro horror a ruídos estridentes. O palhaço Bodegón faz graça com sua própria desgraça, porque o povo se diverte mesmo é com a dor alheia. E por ser muitíssimo desgraçado, o palhaço Bodegón faz sucesso diante de platéias daqui, dali e dacolá. O número do palhaço Bodegón é simples assim: ele entra, desabotoa o paletó, senta-se numa cadeira ordinária e fica algum tempo com o olhar perdido num ponto qualquer de um horizonte imaginário. De repente, a platéia descobre que ele está sofrendo uma dor atroz, dor além das palavras e dos gemidos - então começa um riso na última fileira, outro mais ao centro, mais outro, até que centenas de gargalhadas explodem feito bombas, sem qualquer vestígio de pudor ou compaixão. Um número tão simples, tão simples. O palhaço Bodegón é – indiscutivelmente – um gênio.
Escrito por Dennis D. : 08h35

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