Zero-sete-um-dois-um-dois-zero-sete / Dennis D.
O número de telefone lhe fora entregue em um pedacinho de papel azul-anil, pelo menino cego, num sonho vívido de luz, de cores, de sons e de cheiros, certa noite em que chovia. Ao acordar, lembrou-se do número e de uma frase que o seguia, mas não do enredo do sonho, nem da fisionomia do menino cego. "Zero-sete-um-dois-um-dois-zero-sete. Ligue para os mortos!". Passaram-se quarenta dias e o número daquele telefone não lhe saía da cabeça – nem o número, nem a frase maluca. Ele então pensou que deveria fazer a ligação, pois assim daria fim àquela fixação doentia. "Zero-sete-um-dois-um-dois-zero-sete. Ligue para os mortos!". Ele ligou. Primeiramente, o silêncio que o fez sorrir; depois, o primeiro toque que o deixou intrigado. No terceiro toque, a chamada foi atendida. Uma voz lhe disse: "Zero-sete-um-dois-um-dois-zero-oito. Você ligou para morrer!" Ele sorriu: "Liguei para o número errado, perdão. Na verdade, eu queria o final zero-sete". E desligou. Tentou desligar, melhor dizendo, mas não conseguiu. Com suavidade, a voz explicou: "O final zero-sete, senhor, é 'ligue para os mortos', enquanto o final zero-oito é 'ligue para morrer'. Lamento muito, senhor." Ele quis rir, mas não conseguia mover os lábios. O menino cego, aquele mesmo do sonho na noite de chuva, surgiu de repente e disse com a máxima calma, assim como o professor que repete um enunciado muito simples para um aluno de raciocínio lerdo: "Zero-sete-um-dois-um-dois-zero-nove. Ligue para os vivos!" "Zero-nove", repetiu o garoto. "Zero-nove", tornou a dizer. E ficou ali parado, com a mãozinha direita estendida, esperando receber alguma coisa, um doce, um trocadinho, um teorema...
Escrito por Dennis D. : 23h21

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