Manolo e o pirronismo / Dennis D.
Manolo, cruz de minha vida, sim e sim, eu já ouvi falar de Pirrón de Elis, o filósofo. Quanto à grandeza desse grego, adianto-lhe: há controvérsias. Dizem que, certo dia, estava o tal Pirrón a caminhar por uma estrada e encontrou seu velho professor com a cabeça presa numa cerca. O infeliz estava quase morto de sede e de fome, e já não tinha forças seguer para gemer. O que fez Pirrón de Elis? Nada, Manolito, não fez nadica de nada. Ele apenas seguiu em frente, sem prestar qualquer tipo de ajuda ao velho mestre. Depois, dizem, apareceu um pastor de cabras e este libertou o pobre homem. Os colegas de Pirrón mostraram-se muito decepcionados com o fato de ele ter se negado a socorrer o velho, mas o professor – imagine você – defendeu Pirrón, elogiou-lhe a atitude e ainda disse que este fora absolutamente fiel aos seus princípios filosóficos e coisa e tal, blá, blá, blá. Os tais princípios podem ser resumidos numa frase do próprio Pirrón: “todas as coisas são igualmente indiferentes, instáveis e indecidíveis”. Compreendeu, Manolo? E o que você acha? Pirrón de Elis foi um grande pensador cético ou um pequeno filho da puta helênico? Uma coisa eu lhe garanto, ó garrote dos meus suplícios, se a cabeça presa na cerca fosse a minha, eu teria feito esse Pirrón engolir os próprios bagos. Bah! Faz tempo que eu desisti de tentar alcançar a ataraxia, Manolo. Ataraxia – já explico - é a estóica indiferença ante os prazeres e – sobretudo – ante as dores humanas. Nada de se entusiasmar, meu caro novo-culto. Não existe um mundinho ataráxico, estou certo disto, ao menos fora das casas de ópio de Xangai. Confesso-lhe uma curiosidade: o que um sujeito como você pretenderá fazer com o pensamento pirrônico? Merda, não é, Manolo? Muita merda. Feliz 2008 para você também, criatura.
Em tempo: 1) Elis não era o sobrenome de Pirrón, e sim o nome de uma região da Grécia; 2) Não ouse perguntar qual o nome do pastor de cabras que salvou o velho - não sei, nem quero saber, Manolo.
Escrito por Dennis D. : 13h45

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Electra Silvia / Dennis D.
Electra Silvia era toda cheia de si. Tinha aquela patética altivez das balconistas de joalheria, que se acreditam três oitavas acima de suas outras colegas, as meras balconistas das lojas de roupas ou de eletrodomésticos. Electra Silvia usava os cabelos presos num coque de simplicidade elaborada, falava baixo e andava com tal leveza que se poderia imaginar que dominasse alguma técnica oriental de levitação. Electra Silvia não comia carnes vermelhas, nem bebia café ou chá – bebidas que costumam manchar o esmalte dos dentes. Electra Silvia tomava dois banhos demorados por dia e utilizava quilômetros de fio dental a cada mês. Sabonetes, Shampoos, cremes, perfumes e produtos de maquiagem... apenas os importados. O rosto só era lavado com água mineral francesa (sem gás). Um dia, ao retirar a calcinha, Electra Silvia sentiu que havia algo errado. A tenebrosa palavra 'tumor' insinuou-se em sua mente. Com mãos trêmulas, apanhou um espelho de aumento e, pasmada, descobriu que um gracioso amor-perfeito florescera no meio de seu cu.
Escrito por Dennis D. : 17h49

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