Divonilda / Dennis D.
Divonilda tentou ler Madame Bovary cento e quarenta e duas vezes. Sempre
empacava no mesmo ponto – aquele, logo nas primeiras páginas, em que Flaubert
nos descreve um incidente ocorrido com o menino Charles Bovary. O garoto, novato
na classe, se atrapalha com seu estranho boné e é alvo da zombaria dos colegas.
Depois, o professor castiga a todos e determina que Charles conjugue vinte vezes
o verbo ridiculus sum. Justamente nesse ponto da
leitura, o do verbo, Divonilda colocava o livro de lado e ia tratar de fazer
qualquer outra coisa. Certo dia, ao tomar assento num banco de praça, ela
notou que ao seu lado estava sentado um senhor de cabelos brancos. Ele trazia ao
colo – coisa mais interessante! - um exemplar de Madame Bovary. E sendo tal
homem possuidor de um semblante pacífico, quase clerical, ela resolveu comentar:
"Eu já quis ler esse livro, sabe? Umas tantas vezes eu tentei, mas nunca passei
das primeiras páginas." O homem olhou-a com bondade. "Pois desista de uma
vez por todas, minha filha. Deixe o livro pra lá. Nunca mais o toque, é o
conselho que lhe dou. Há leitores que fazem muito mal aos livros. Livros se
deprimem, livros se desesperam, rompem as próprias costuras, envenenam-se a
si próprios com fungos fatais, chamam a si as esfaimadas traças papa-papel,
suicidam-se enfim. E o fazem por quê? Justamente porque são manuseados por
leitores do seu tipo, minha filha. Deixe os livros em paz, tenha piedade deles e
divirta-se com os programas de televisão, ou com os filmes de amor. Você é
perigosa para os livros, filha. Se você entrar numa livraria, as estantes hão de
tremer. Basta prestar bem atenção. Se tiver bons ouvidos, filha, você há de
escutar gemidos, gritos, pedidos de socorro vindos de todos os cantos. Seja
boazinha, desista dos livros em geral. Nada de leituras, você não é disso, eu
sei, eu sinto." Divonilda teve um sobressalto: "Perdão, eu me distraí. O
que o senhor disse mesmo?" O homem perguntou: "Em que ponto parou de ouvir,
filha?"
Escrito por Dennis D. : 00h04

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Lívio / Dennis D.
Todas as manhãs dos dias úteis, Lívio Quintais de Souza, o oftalmologista que
mora no décimo primeiro andar, apanha o elevador e desce até o primeiro subsolo.
Desce sozinho e nunca encontra ninguém na garagem, pois é sempre o primeiro
morador a sair do Edifício Varanda das Samambaias. Ontem, entretanto, o padrão
foi quebrado. Ao abrir a porta do elevador, o oftalmologista deu de cara com uma
mocinha desconhecida, que vestia longa, branca e diáfana camisola branca, e
trazia os longos cabelos tombados sobre os ombros. Ele ficou de tal forma
desconcertado, que resolveu apresentar-se: "Bom-dia, muito prazer. Lívio
Quintais de Souza." Ela respondeu baixinho: "Bom-dia. Maria, mãe do
Cristo." ... Desceram sem trocar outras palavras, cada qual pensando suas
coisas, envoltos em perfume de rosas.
Escrito por Dennis D. : 22h39

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