Lembrança de Piraporinha / Dennis D.
Sim, é verdade, Manolo, faltam poucos dias para o meu aniversário. Não, não é verdade que eu esteja todo pimpão a esperar pelos rapapés da data. Há anos que você me assombra, Manolo, e - quanto mais o tempo passa - menos você me conhece. Em 2012, se ambos ainda estivermos vivos, penso que você me convidará para um samba na casa do Arnesto – aquele que mora no Brás. Meu aniversário, Manolito, é data em que fico ainda mais melancólico, tentando sorrir (ao menos com o canto esquerdo da boca) e esforçando-me ao talo, a fim de exibir uma expressão feliz, civilizadamente feliz, diante daqueles rostos radiantes que colocam à plena luz cada detalhe do meu desconcerto. Por dentro, só faço repetir a frase mofada, mas consoladora, de Scarlett O'Hara: "After all, tomorrow is another day!" Por que você pergunta qual presente eu gostaria muito de ganhar? É uma pergunta retórica ou você pretende me surpreender agradavelmente? Bah! Não há qualquer presente de aniversário que eu deseje ganhar, juro por Mozart, porque já tenho tudo de que necessito - em termos de trecos materiais, é óbvio. Tenho piano, saxofone, violino, livros, amêndoas turcas glaceadas e até um bom naco de geléia-fantasia. Ah, lembrei-me agora de algo físico que não tenho e muito me alegraria receber de presente: um peso de papel feito de vidro, cheio de bolhas de ar eternizadas, com algo inesperado dentro dele (falsos cogumelos azuis, por exemplo) e a frase "Lembrança de Piraporinha". Não pense que eu esteja sendo irônico; a minha alma é singela, Manolo; o meu coração é infantil e alegra-se com mimos baratinhos. Grandiosidades - anote aí - são coisas que os olhos não podem ver, nem os dedos podem tocar. De qualquer modo, quando o tal dia chegar, não se incomode em trazer-me quaisquer lembrancinhas, e digo mais: eu suplico que não as traga. Sua presença já será o bastante, não complique as coisas, Manolo, estou ficando velho e tenho procurado evitar contrariedades.
Escrito por Dennis D. : 11h28

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Marfino / Dennis D.
O solitário professor Marfino tinha mãos enormes e peludas. "Mãos de lobisomem", dizia Carmem Norma, a diretora do Liceu Bilac. "Sempre metidas nos bolsos da calça", ajuntava Pompeu Galinhas, o bedel de narinas arfantes. "E são tão brancas, os pêlos tão negros, as unhas tão bem manicuradas", completava Guilhermina, a secretária boazinha. Assim que chegava ao lar, o professor Marfino logo tratava de retirar as mãos enormes, brancas e peludas - como quem retira luvas. Em seguida, colocava-as dentro de uma caixa de madeira escura e lustrosa. As mãos reais do professor Marfino eram pequeninas como as mãos de uma criança de seis anos, mas tão lívidas como as mãos falsas e também cobertas de pêlos negros. Após o jantar, o professor Marfino dedicava uma hora inteira ao piano – um velho piano infantil Hering, em cujo teclado os dedinhos ágeis do mestre executavam maravilhosas sonatas em versões simplificadas. Por essa altura da noite, dentro da caixa de madeira escura e lustrosa, as falsas mãos já estavam de mornas para frias.
Escrito por Dennis D. : 08h31

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