Mariquinha e Peixotão / Dennis D.
Toda cheia de ares e olhos, saia curta, blusinha muito justa, Mariquinha entrou no bar do Peixotão. E lá estava o próprio a lavar copos e mais copos, com o auxílio de sua escovinha de cabo de arame, instrumento de grande serventia na remoção dos restos de bebidas pousadas desde o dia anterior, das manchas deixadas por dedos gordurosos, e ainda dos diversos matizes dos batons usados pelas freguesas vindas das vielas e das esquinas. Mariquinha apoiou os cotovelos no balcão e fez bico pidonho: "Ai, padrinho, você arruma um canário pra mim? Sem um canário só meu, não vivo, não! Queria um que não fugisse em poucos dias... Estou cansada de perder canários!" Peixotão, que era um português muito bem vivido, deu o conselho: "De canários o mundo está cheio, Mariquinha! Tu, ainda que nova assim, já tiveste tantos que nem sei quantos, mas se a tua gaiola perdeu a portinhola, como queres que eles não fujam para longe? Em gaiola sem portinhola, canário não pára mesmo, Mariquinha!" A menina se fez de surda e pediu: "Dá um leitinho quente pra mim, padrinho? Tô com a garganta tão seca..."
Escrito por Dennis D. : 11h52

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A miçanga / Dennis D.
Terça-feira de carnaval, primeira hora da madrugada. Ornildo José Ribeiro, quarenta e quatro anos, vigia noturno do Museu de Tradições Populares da Universidade Multiétnica do Recife, descobre sinais de violação em um dos principais expositores do Salão Central, no pavimento térreo do edifício. Poucos minutos depois, Mario Oliveira Rosas, chefe da equipe de segurança da UMR liga para a residência do reitor, dr. Hórus Alberto Couto, e comunica o furto de uma pequena peça de inestimável valor histórico, talvez a peça mais importante até então exposta em museu brasileiro: a Miçanga Batulé. Medindo apenas três milímetros de comprimento, a pequena conta de cristal de coloração avermelhada chegou ao Brasil em 1562, na pulseira do jovem escravo Oba-iê de Naná. Registros históricos do Museu Nacional relatam que, no ano de 1588, a Miçanga Batulé foi costurada no estandarte do primeiro bloco de folias populares, o Bloco Calango-Pakutu do Recife. Posteriormente, conforme palavras do historiador prof. Renato Bicudo de Camargo, a Miçanga Baturé foi roubada, reaparecendo na cidade do Rio de Janeiro, incrustada no diadema de Eurolina Maria de Mello, tida como a primeira Princesa do Entrudo Santa Ideolfonsina. O entrudo, explica o prof. Bicudo de Camargo era uma festa popular que reproduzia o chamado carnaval europeu. O furto da Miçanga Batulé, relíquia de importância inestimável, provocou consternação e revolta entre historiadores e intelectuais brasileiros. A antropóloga e carnavalesca dra. Marilu Tavares resumiu toda a sua tristeza na frase: "O desaparecimento da Miçanga Batulé pode ser comparado a um abalo sísmico que transformasse em pó os magníficos afrescos de Michelangelo no teto da Capela Sistina".
Escrito por Dennis D. : 09h27

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