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Tensão e afrouxamento / Dennis D.
Sempre com o nariz trinta e cinco graus acima da linha do horizonte, Maria Olímpia da Cunha se acreditava a pianista mais promissora abaixo da linha do equador, quiçá também arriba. E mais: já se antevia (num futuro bem próximo) como primeira-pianista da Mozarteum de Salzburg. Eu assistira a duas ou três apresentações de Maria Olímpia e a considerava uma intérprete excessivamente física, possuidora daquele apavorante vigor dos lenhadores de Wisconsin, sabem como é? Chegou, enfim, a noite da Grande Audição de Formandos do Conservatório São Paulo. Maria Olímpia fecharia o programa com a sua interpretação da 6ª Rapsódia Húngara de Liszt (ai que medo!) Fecharia... porque não fechou. Sentou-se na banqueta, toda posuda, com o seu vestido branco e prata, cujas fendas laterais iam ao meio das coxas. Coisa mais esquisita, parecia uma noiva sem grinalda. Bom, isto não importa. O fato é que ela se acomodou na banqueta, encostou o pé no pedal de sustain, ergueu as mãos sobre o teclado e – nesse exatíssimo instante – acima do palco, a lâmpada de um dos grandes refletores explodiu. Com o susto, Maria Olímpia estremeceu e cagou-se toda.
Escrito por Dennis D. : 11h53

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Benevides Pena / Dennis D.
Nos quintais da sua loucura, Benevides Pena idealiza a grande reforma do mundo: "Vamos começar pela Jovelina Ancuda, mãe de minha falecida Ordália. Ah, aquela Jovelina! Prejuízo de dois mil e quinhentos dinheiros a gente não esquece! Passadora de cheque sem fundo! Desgraçada! Amanhã mesmo ela vai acordar com cabeça de leitoa e corpo de jacaré...” Suspira, e prossegue: “Vou mudar a cor do céu, vou sim! Já estou enjoado de tanto azul com branco, prefiro verde. E quero todas as nuvens bem pretas - pretas como a escuridão das furnas do cu do Diabo. E que as nuvens pretas, quando carregadas, mijem azeite fervente. O mar inteiro eu o quero seco e cor de chumbo. Mar de chumbo em pó, fininho feito talco. Os bichos grandes vão ganhar cabeças humanas; os peixes vão ganhar pernas pra caminhar dia e noite nas estradas do novo mar; os bichos pequenos serão comidos pelos novos peixes, que – por sua vez - serão comidos, de dentro para fora, pela ferventura dos vermes nascidos dos bichos pequenos engolidos. O sol se partirá em quatro, a lua se partirá em oito. Marte, o planeta, chegará perto da Terra. Perto, mas pertinho mesmo, coisa de alguns metros. Coisa de esticar o braço e bolir com uma vara. Os marcianos, por ordem minha, irão todos urinar aqui neste mundo de infelicidades...” Tosse, tonteia e prossegue: “Também quero um vulcão gigante bem no meio do Brasil, um vulcão nervoso, que arrote gases mortais e vomite vidro líquido na cabeça do povo. Povinho desgraçado, povinho asneirento que não sabe votar! Amanhã toda essa gente vai acordar cega dos dois olhos, surda dos dois ouvidos e sem os furos do nariz..." O relógio da sala marca dez horas, mas bate apenas uma vez. Benevides Pena apaga as luzes (deixa acesa apenas a luzinha azul do nicho de gesso onde esta a imagem de Nossa Senhora das Lágrimas), calça os chinelos de tiras rotas e caminha para o quarto. Dez horas e dois minutos. Dez horas e três minutos. Dez horas e quatro minutos. Um tiro.
Escrito por Dennis D. : 15h59

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Orville Duvall / Dennis D.
Orville Duvall, considerado um dos três romancistas mais promissores deste início de século, relata-nos como – aos quarenta e quatro anos – resolveu escrever o seu primeiro texto literário, o qual posteriormente serviu de ponto de partida para o genial romance ‘Prefiro Morrer’. Antes de ter alcançado tão destacada posição entre os ficcionistas contemporâneos, Duvall era um obscuro piloto de carga em atuação na África.
“Há cinco anos, eu pilotova Y’A Bon, o meu monomotor Latécoère, quando – devido a uma súbita tormenta - fui obrigado a fazer um pouso emergencial na Planície Katoo-o, no leste da Tanzânia. Não me feri, mas Y’A Bon sofreu danos graves. Quase imediatamente calculei que ficaria mofando ali naquela região remota por muitas semanas, até que alguém desse por minha falta e uma busca fosse iniciada. Sempre fui um devorador de livros, não fico um único dia sem ler, por isso eu me senti aliviado ao descobrir, no compartimento de carga da aeronave, uma caixa abarrotada de livros. Todos eles, entretanto, eram de um único autor: José Saramago. Fui tomado pelo desespero. Confesso que comecei a observar as árvores, pensando em arrancar o meu cinto e providenciar um enforcamento rápido. Achei então alguns cadernos em branco, duas canetas, e veio-me a certeza: ou escrevo algo que eu mesmo possa ler... ou prefiro acabar com tudo de uma vez. Melhor a morte do que o chato do Saramago. Assim nasceu o meu primeiro texto literário. Depois disso, nunca mais parei de escrever”.
Escrito por Dennis D. : 13h01

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