Latin Fantasy / música / Dennis D.
A verdade é que sinto um grande e irresistível prazer em criar coisas fora dos contextos que me cercam e abocanham, coisas sem destinação prática, objetiva, sem relação direta com o momento histórico e o espaço em que existo. Decididamente, não sou um utilitarista. Imagino que estou concebendo e produzindo um tipo de arte que subverte a linha do tempo, algo mais ou menos assim (não é fácil explicar). Por isso, talvez, eu goste tanto de compor melodias ao estilo dos anos 30, 40, 50. É um desafio recriar atmosferas musicais que existiram num passado distante, e que preenchiam os sonhos de tanta gente que nasceu bem antes de mim. Fazer os arranjos dessas composições, selecionar os instrumentos mais adequados, buscar o clima exato, interpretar as criações finalizadas – nossa! – me acalma os bichos e alegra a alma. Aqui, apresento a vocês um desses meus exercícios de subversão da linha do tempo – uma composição minha ao estilo latino dos anos 1950. Batizei-a de Latin Fantasy. (Vibrafone / sutis Violinos / Baixo Acústico / Violão / Saxofone / Bongôs)

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Beatriz Linhão / Dennis D.
Em que fria tumba se escondem agora os restos poucos de Beatriz Linhão, minha antiga professora de Literatura? Ah, Dona Bibi Linhão... aquela velhinha cor-de-flor-de-pessegueiro, aquela daminha de lábios franzidos e de sobrancelhas finas, pintadas com lápis azul-marinho... mas que porra de saudade bateu aqui!
Dona Bibi Linhão falava baixo, cheirava a talco Alma de Flores, e sempre navegava contra todas as correntes. Considerava Clarice Lispector meramente “uma ucraniana chata que sofria de prisão de ventre”. Definia a Semana de Vinte e Dois como “aquela patacoada inventada por meia dúzia de moleques de pintos curtos e suas rameiras de tabacas largas”. Certa vez, ao final de uma aula, por querer ou sem querer, ela peidou. A classe toda riu e ela saiu-se com esta: “Ouviram só, queridos? O Guimarães Rosa falou qualquer coisa, mas alguém entendeu o que ele disse?” Num junho soprado de friagens, Dona Bibi apanhou uma gripe de febrão e tosse. Pediu afastamento; nunca mais voltou. Em seu lugar apareceu uma vaca que andava com o livrinho vermelho de Mao Tse-Tung enfiado na bolsona feita em croché de fibras naturais de palmeiras da Ilha de Marajó.
Escrito por Dennis D. : 21h54

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