Beatriz Linhão / Dennis D.
Em que fria tumba se escondem agora os restos poucos de Beatriz Linhão, minha antiga professora de Literatura? Ah, Dona Bibi Linhão... aquela velhinha cor-de-flor-de-pessegueiro, aquela daminha de lábios franzidos e de sobrancelhas finas, pintadas com lápis azul-marinho... mas que porra de saudade bateu aqui!
Dona Bibi Linhão falava baixo, cheirava a talco Alma de Flores, e sempre navegava contra todas as correntes. Considerava Clarice Lispector meramente “uma ucraniana chata que sofria de prisão de ventre”. Definia a Semana de Vinte e Dois como “aquela patacoada inventada por meia dúzia de moleques de pintos curtos e suas rameiras de tabacas largas”. Certa vez, ao final de uma aula, por querer ou sem querer, ela peidou. A classe toda riu e ela saiu-se com esta: “Ouviram só, queridos? O Guimarães Rosa falou qualquer coisa, mas alguém entendeu o que ele disse?” Num junho soprado de friagens, Dona Bibi apanhou uma gripe de febrão e tosse. Pediu afastamento; nunca mais voltou. Em seu lugar apareceu uma vaca que andava com o livrinho vermelho de Mao Tse-Tung enfiado na bolsona feita em croché de fibras naturais de palmeiras da Ilha de Marajó.
Escrito por Dennis D. : 21h54

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